quinta-feira, 15 de outubro de 2015

sobro em mim


sobro em mim
como se tivesse metido uma cara sobre a outra
como se tivessem me vestido o vestido da desconhecida
como se usasse a peruca do rei e as calças do palhaço
obro em mim
sobro em mim
como se carregasse inúmeras gavetas roubadas
vazias
oro em mim
como se não soubesse andar
sobro em mim
como se a casa nunca tivesse sido minha
perco-me entre os quartos
e a noite nunca encontro a cozinha

sumo em mim
como se fosse a luz já fraca
ainda ali, esquecida no jardim do vizinho
cobro em mim
como se fosse uma boneca inflável 
que caridosas pernas levaram para tomar
ar

sobro em mim
como se carregasse nos bolsos 
as bocas de minha mãe e de minha tia 
a gritar que o relógio da igreja está atrasado.
O relógio de deus está atrasado!
fujo,
são em mim

em mim
soco
como se fosse o disco
 a repetir a melhor canção da década passada
obro em mim
como se tivesse adormecido 
o sono de cinco gerações futuras de 
bebês gorduchos e rosados
sonho em mim
como se houvesse uma voz calada
a cantarolar na roda gigante de meu nariz

sonho em mim
como se um dia eu tivesse existido
como se tivesse existido um dia para gritar aquele
 'Não aceitamos mais!'.
sobro em mim
como se um dia tivesse acreditado na felicidade
como se tivesse passado 
as últimas semanas a alimentar-me de pão e vinho
e liberdade
sono em mim

em mim
como se tivesse metido o amor em um sapato
sobro e soco
como se tivesse decorado a sala do vizinho
com os restos do meu funeral
sumo em mim
como se fosse capaz de dizer simplesmente 'muito obrigado'
primeiro, em uma uma terça feira triste, cheia de ressaca
depois em outro dia feira
sumo em mim
e o carteiro não acha a casa que sou.

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