terça-feira, 20 de outubro de 2015

um bate papo com 'Pele de lobo' de Pedro Diego Fidelis

Antes de mais, apresento o convidado do dia, o poema 'Pele de Lobo' de Pedro Diego Fidelis.

O cretino, subjugou os animais,
exibindo as presas de metal
calou os seus minérios
com a música do terror Plus ultra.
Dedos mordidos tocaram as palavras
Somos agressores e
Guardiões desta forma de vida

O infinito silêncio.
Caos

 Desertos de toda a Frase finda,
estamos oferecendo as mãos
Para esta já não fera.
Que com Deus reinventa
Tudo o que era.

Convidei o poema para bater um papo. Ele aceitou sem fazer charme. Exigiu apenas que fossemos dar um passeio. 
Levei o poema para a cidade. Fiz mal. Ela riu na cara dele. Um riso irritante, quebrado e barulhento. O riso daqueles que não entendem e desesperadamente tentam sufocar a incompreensão num amontoado de grunhidos.
O poema irritou-se. Exigiu que a cidade se calasse. Ela ressentiu-se, engoliu o riso e mostrou-lhe os dentes, com ferocidade. Por último, gritou na cara do poema que ele era inútil.
Eu fiquei calada. Depois, corri com o poema para uma livraria. Achei que assim ele ia se sentir em casa e a gente ia poder finalmente conversar. Ele continuou calado. Eu ainda tentei começar uma dessas conversas estupidamente gastas. 
_ E aí poema, de onde você é? 
ele não respondeu. 
Decidi tentar um assunto mais atual, para ver se ele se decidia a falar. 
_ Poema o que você acha da crise?  
mais uma vez ele ficou calado. 
Por fim, achei melhor dar ao poema algum espaço. Estava claro que ele precisava ficar sozinho. Distraí-me meio as prateleiras por um bocado, quando voltei o poema tinha desaparecido. 
Sai pela cidade a procura dele. Quase encontrei-o uma porção de vezes. Mas, cheguei sempre atrasada. 
Primeiro perguntei ao telefone público que ninguém mais usa se ele tinha visto o poema. 

Afirmativo. 'Pele de lobo' tinha passado por ali. Tinha sido honesto, inteiro, como quase mais nada nem ninguém o sabe ser nesses tempos_ foi o que o telefone abandonado me disse. Contou-me ainda que ele tinha partido não fazia muito. Tinha dito que tinha um segredo para dividir comigo. 
Um segredo?
O homem de pedra chamou-me pelo nome e disse que tinha um recado para mim. 


_ O poema mandou dizer-lhe que vá para casa. 
Quem o poema achava que era para me mandar ir para casa? 
O homem de pedra disse que na opinião dele eu  devia seguir as instruções. Pelo pouco que ele tinha visto, 'Pele de lobo' sabia das coisas. 
O poema tinha contado ao homem de pedra que ele tinha gasto uma existência inteirinha a olhar para o lado errado, como a maioria da humanindade faz. 
'Pele de lobo' não perdia tempo com ilusões ou meias palavras. 'Pele de lobo' dava nome as coisas e não tinha medo de apontar o dedo. 
Antes de despedir-me do homem de pedra, perguntei se agora que ele já sabia a verdade se ia virar a cabeça para o lado certo. Ele respondeu que não, para ele, assim como para a humanidade era tarde demais. 
Fiquei pensando se o homem de pedra era tão pessimista por ser de pedra, ou se tinha virado pedra de tão pessimista. Não achei resposta e segui para casa como o poema tinha ordenado. Ao longe vi-o pendurado na ponte. Por um segundo tive medo que ele pulasse. Será que o poema tinha se deprimido tanto que tinha decidido acabar de vez? 
Gritei:
_ Poema, não se joga, não vale a pena!

Enquanto corria para tentar alcançar o poema fiquei pensando se não valia mesmo a pena. Por que é que eu tinha gritado aquilo? Quem eu pensava que era para decidir sobre a valia ou desvalia do suicídio do poema?
Claro que quando cheguei na ponte o poema já tinha partido. Não pulou. Saiu voando. Vi-o voar sobre a minha cabeça e a cabeça de tantos outros, que nem deram por ele.
O poema só parou quando viu uma menina escrevendo na parede. Disse bom dia e ela respondeu. Pela primeira vez vi o poema sorrir. Achei que talvez aquele sorriso fosse um sinal de que o poema ainda lembrava esperança. Tentei chegar mais perto para escutar o que eles conversavam, mas as minhas pernas não souberam ser mais rápidas do que a língua do poema. Quando cheguei ele já tinha silenciado outra vez.

A menina me contou que o poema tinha parado para ver se ela servia para função de profeta, é que ele tinha um segredo para contar para mim e para tantos outros que nem eu.
E então ela servia?
Servia não. O poema tinha explicado para ela que só alguém que já tinha sentido o cheiro da morte ia saber ser o portador do segredo.
Ela conhecia o cheiro de máquina fotográfica, porque era uma menina famosa. Conhecia o cheiro de xixi humano e de cachorro, porque habitava um canto escuro da cidade. Conhecia até o cheiro de uma tal de liberdade, que ela nunca tinha visto, mas da qual  já tinha ouvido falar muito. O homem que vivia encima da cabeça dela mesmo, estava tentado escapar de um mundo sem liberdade fazia uma eternidade. Mas o cheiro da morte ela não conhecia não.

Eu achava que também eu não conhecia o cheiro da morte. Mas o poema tinha me feito enxergar que eu conhecia sim. A morte está no coração de todas as coisas desse mundo passageiro e impaciente. A morte que chega devagarzinho e vai ocupando tudo o que deixa de ter utilidade, como o telefone público e o meu avô. A morte que já é parida com a gente, grudada na pedra e no sangue de que somos feitos. A morte para a qual a gente caminha. A morte do segundo, que passa tão rápido e só existe uma vez. A morte da ponte, que parece que dura muito tempo, mas que nunca dura para sempre. Ela é machucada e transformada por todos aqueles que vão de um lado para o outro sem deveras ir a lugar algum. Até a morte da menina que não serve para ser profeta existia. A morte da arte passageira, democrática, a arte metida no meio da rua, nos cantos da rua, feita para gritar bem alto e depois morrer, um pouco de cada vez, com cada pingo de chuva, cada flash e cada raio de sol que caem-lhe encima.
Enquanto divagava sobre todas as mortes que me rodeiam cruzei com as profetas   que o poema tinha escolhido: duas florzinhas amarelas já idosas, que tinham tido uma vida difícil, encrustadas numa pedra.

_ São cretinos tanto os que destroem quanto os que assistem calados à destruição.

Por um minuto tive vergonha de ser eu, mais uma cretina.
Mas, a cretina que sou correu para a casa, trancou todas as portas e janelas e meteu-se debaixo de um banho quente e demorado, para esquecer 'Pele de lobo' de vez.

Para conhecer outros poemas de Pedro Diego Fidelis visite https://www.facebook.com/pedro.d.fidelis/notes?pnref=lhc. 

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