sexta-feira, 13 de novembro de 2015

estrangeira

por Carol Stampone

Estrangeira
tenho existido estrangeira
sobrado em terra estrangeira
faz algum tempo
há coisas que escapam de mim em língua estrangeira
outras que só sabem existir metidas na minha primeira língua
uma língua que não é minha
eu sei, mas também não sei

I'm broken
quase sempre é em língua estrangeira que essa verdade me alcança
acho que porque estar quebrada tem muito a ver com a minha condição de estrangeira

Estrangeira com letra maiúscula
se fosse minúscula era mais fácil?

estrangeira por opção
metida na periferia do mundo
por culpa do Zeca Pagodinho
que inventou de inventar
'deixa a vida me levar, vida leva eu'...

eu as vezes levo demasiado a sério verdades momentâneas
mas só as que sabem me alcançar
ou então as que caem-me encima, sem pedir licença

a língua que trava
há tanta coisa que não sei dizer em língua estrangeira
a repetição dos lugares comuns
exótica
a terra de onde eu vim é exótica
o meu jeito de falar é exótico
a minha cor é exótica

outro dia conheci um rapaz que me disse que era esquisito
era esquisito que eu viesse do Brazil e não tivesse a cor das brasileiras
a cor das brasileiras? eu perguntei
sim, aquela cor chocolate, ele respondeu

eu não sou chocolate, é verdade
sou estrangeira
nem sempre saibo bem
não sou saudável

eu e o cacau temos coisas em comum
nascemos os dois em terras de desigualdade
na minha produção, se você olhar bem no começo, vai encontrar trabalho escravo e até trabalho infantil
como acontece com a Nestlé

mas eu não tenho um montão de gente trabalhando no meu logo
me apresentando para o mercado de uma forma agradável
não
eu sou estrangeira, mão de obra barata
inimiga em potencial
bem vinda só até ali ou acolá
depende da crise
da pauta política
depende se as câmeras estão ligadas ou não.


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

quando chegar a hora

por Carol Stampone

quando chegar a hora
de dizer que já não há tempo e
afirmar que as possibilidades perderam-se com o vento
que tal invencionar em voz alta que
foi
a hora que chegou atrasada
o tempo que decidiu voltar para casa,
porque percebeu chuva a caminho
e tinha esquecido o guarda-chuva?

quando chegar a hora
de abrir a boca para derrubar culpa
ou gastar os dedos para apontar culpados
que tal invencionar um lugar sagrado?
uma casa
onde cabe tudo e todos que sabem dançar
e que não esquecem que a culpa é coisa vazia e afiada
que devia ocupar ninguém e lugar nenhum.

quando chegar a hora
de fazer alguém menor
só pelo prazer daquele tiquinho de micro poder
que nem sabe grudar na mala nem nada
que tal abrir a pele, a boca e o ânus
e deixar aquela feiúra escapar de ti
escorregar no mundo e reviver outra coisa?

quando chegar a hora
de quebrar, despedaçar
desaprender a andar sozinho
que tal gastar um tubo inteirinho de cola
e reiventar a você mesmo
como fazia o menino pequeno na escola
nos dias de começo?
quando ele ainda acreditava
que a beleza sabia caber entre os punhados de algodão e de gliter e lantejoulas
lembra?
o menino juntava aquilo tudo, metia cola e mais cola, até grudar os próprios sonhos, metade entre os dedos e a outra metade no papel
depois levava aquilo para casa
e mostrava para mãe com tanta certeza de triumfo que ela esquecia a feiura da coisa e ria
e vivia mais alta, mais inteira, menos cansada
por um momento.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

dia errado para um Zé ninguém

por Carol Stampone

_ Tem dia certo para acabar? 
Ele perguntou aquilo sem aviso prévio, sem licença, sem delongas. Abriu a boca e perguntou. Foi tudo. Estava mastigando um pedaço de frango com cenoura e arroz. Eu não sei o que eu devia ter respondido. 
Não queria ter reagido como eu reagi. Mas eu também era humana. 
Tem
Dia 
Certo
Para
Acabar?
Quem acaba num dia pode voltar a existir num outro dia qualquer? Amanhã quem sabe? Amanhã ia fazer nove anos que a gente vivia junto. A gente se juntou logo depois da gravidez. A vida nunca foi fácil, mas antes, pelo menos a gente tinha um ao outro. 
Por que é que ele não abaixou a cabeça e continuou existindo?
_ Mainha, eu fiz uma pergunta. A senhora sabe se tem hora certa para acabar? 
_ Cala a boca! _ gritei na cara dele e corri para o banheiro. Para bater a cabeça contra a parede, em desespero. O desespero de quem quer esquecer. O desespero de quem tinha assistido a sua última esperança ser arrancada. A esperança de fazer de conta. 
Por que é que as crianças sabiam fazer as perguntas mais difíceis? 
Ele tinha acabado. Ele não ia mais voltar. Se ele tinha acabado no dia certo ou no dia errado eu não sabia. A minha pele gritava que para ele acabar todos os dias eram errados, inapropriados e impossíveis. Dia certo para ele acabar? Só se eu acabasse antes. 
Mas agora já não tinha jeito. Ele tinha deixado de existir. E era para sempre. Ia ser bom se tivesse jeito dele voltar. Ia ser bom se tivesse um dia em que ele pudesse desacabar, desabrochar de novo, na nossa frente. Aquele sorriso grande, que parecia não ter medo da vida. 
A verdade é que só parecia. Ele tinha me contado que tinha medo sim. Tinha medo dos 'homê'. Era assim que ele dizia. Os policiais corruptos estavam a ficar cada vez piores. Agora queriam subir a 'proteção', era assim que eles chamavam a extorsão, 'proteção'. 
Pobre que nem a gente não tem direito garantido não. Tem que achar um jeito de sobreviver. Pagar os policiais para que fechassem os olhos para a muamba foi o jeito que o meu Zé arrumou. Ele saia todo dia cedinho, o sol ainda nem tinha raiado, e voltava sempre depois das nove, cansado que só, mas sorridente. 
Dizia que a gente tinha que ensinar esperança para o nosso menino. Se ele só carregasse no lombo a dureza da vida corria o risco de desistir pelo caminho. Agora que o Zé já não existia, quem é que ia ensinar esperança para o nosso menino? Eu não dava conta. Já tinha que trabalhar fora para pagar o aluguel e o de comer. Ainda tinha que cozinhar, lavar e limpar para mim e para o Zezinho. E o mais difícil de tudo, tinha que achar um jeito de continuar de pé, repetindo os dias. 
Sem querer pensei na hora do acabar do Zé. Será que o Zé partiu com esperança? Ou será que foi só cansaço, desilusão e medo que ele carregou nos ossos? 
O ódio ele não levou. Deixou todinho aqui para mim. 
Os 'homê' bateram a minha porta para avisar que o meu Zé estava gelado e sem alma e que eu tinha que ir lá longe dizer que ele era ele. Eu não devia ter ido. Não devia ter olhado para aquele corpo esburacado. As balas que os policiais disseram que ele só levou porque atirou primeiro. O Zé nunca nem teve arma. Atirou como? 
O Zé esqueceu o lugar dele. Esqueceu que não se questiona o que os 'homê' define. O preço da 'proteção' tinha aumentado. Ao invés de dizer 'sim senhor', pagar e abaixar a cabeça, o Zé quis organizar os outros muambeiros. Levou três tiros para servir de exemplo. 
Eu contratei um advogado. O meu ódio exigia justiça para a morte do Zé. Gastei cada centavo das nossas economias para tentar encontrar alguma justiça pro cê, Zé, ao menos depois de morto. Consegui nada não. O medo calou todos os outros. Na frente do juiz eles disseram diferente. Disseram que não tinham visto nada. Os policias repetiram a mentira de que ocê era bandido e atirou primeiro. Desculpa, Zé, mas ao invés de derrubar esperança no nosso menino eu vou dividir com ele duras verdades. 
_ Todos os dias são errados para os Zé e Marias ninguém como a gente, meu filho. Todos os dias são errados para gente como a gente.