segunda-feira, 2 de novembro de 2015

dia errado para um Zé ninguém

por Carol Stampone

_ Tem dia certo para acabar? 
Ele perguntou aquilo sem aviso prévio, sem licença, sem delongas. Abriu a boca e perguntou. Foi tudo. Estava mastigando um pedaço de frango com cenoura e arroz. Eu não sei o que eu devia ter respondido. 
Não queria ter reagido como eu reagi. Mas eu também era humana. 
Tem
Dia 
Certo
Para
Acabar?
Quem acaba num dia pode voltar a existir num outro dia qualquer? Amanhã quem sabe? Amanhã ia fazer nove anos que a gente vivia junto. A gente se juntou logo depois da gravidez. A vida nunca foi fácil, mas antes, pelo menos a gente tinha um ao outro. 
Por que é que ele não abaixou a cabeça e continuou existindo?
_ Mainha, eu fiz uma pergunta. A senhora sabe se tem hora certa para acabar? 
_ Cala a boca! _ gritei na cara dele e corri para o banheiro. Para bater a cabeça contra a parede, em desespero. O desespero de quem quer esquecer. O desespero de quem tinha assistido a sua última esperança ser arrancada. A esperança de fazer de conta. 
Por que é que as crianças sabiam fazer as perguntas mais difíceis? 
Ele tinha acabado. Ele não ia mais voltar. Se ele tinha acabado no dia certo ou no dia errado eu não sabia. A minha pele gritava que para ele acabar todos os dias eram errados, inapropriados e impossíveis. Dia certo para ele acabar? Só se eu acabasse antes. 
Mas agora já não tinha jeito. Ele tinha deixado de existir. E era para sempre. Ia ser bom se tivesse jeito dele voltar. Ia ser bom se tivesse um dia em que ele pudesse desacabar, desabrochar de novo, na nossa frente. Aquele sorriso grande, que parecia não ter medo da vida. 
A verdade é que só parecia. Ele tinha me contado que tinha medo sim. Tinha medo dos 'homê'. Era assim que ele dizia. Os policiais corruptos estavam a ficar cada vez piores. Agora queriam subir a 'proteção', era assim que eles chamavam a extorsão, 'proteção'. 
Pobre que nem a gente não tem direito garantido não. Tem que achar um jeito de sobreviver. Pagar os policiais para que fechassem os olhos para a muamba foi o jeito que o meu Zé arrumou. Ele saia todo dia cedinho, o sol ainda nem tinha raiado, e voltava sempre depois das nove, cansado que só, mas sorridente. 
Dizia que a gente tinha que ensinar esperança para o nosso menino. Se ele só carregasse no lombo a dureza da vida corria o risco de desistir pelo caminho. Agora que o Zé já não existia, quem é que ia ensinar esperança para o nosso menino? Eu não dava conta. Já tinha que trabalhar fora para pagar o aluguel e o de comer. Ainda tinha que cozinhar, lavar e limpar para mim e para o Zezinho. E o mais difícil de tudo, tinha que achar um jeito de continuar de pé, repetindo os dias. 
Sem querer pensei na hora do acabar do Zé. Será que o Zé partiu com esperança? Ou será que foi só cansaço, desilusão e medo que ele carregou nos ossos? 
O ódio ele não levou. Deixou todinho aqui para mim. 
Os 'homê' bateram a minha porta para avisar que o meu Zé estava gelado e sem alma e que eu tinha que ir lá longe dizer que ele era ele. Eu não devia ter ido. Não devia ter olhado para aquele corpo esburacado. As balas que os policiais disseram que ele só levou porque atirou primeiro. O Zé nunca nem teve arma. Atirou como? 
O Zé esqueceu o lugar dele. Esqueceu que não se questiona o que os 'homê' define. O preço da 'proteção' tinha aumentado. Ao invés de dizer 'sim senhor', pagar e abaixar a cabeça, o Zé quis organizar os outros muambeiros. Levou três tiros para servir de exemplo. 
Eu contratei um advogado. O meu ódio exigia justiça para a morte do Zé. Gastei cada centavo das nossas economias para tentar encontrar alguma justiça pro cê, Zé, ao menos depois de morto. Consegui nada não. O medo calou todos os outros. Na frente do juiz eles disseram diferente. Disseram que não tinham visto nada. Os policias repetiram a mentira de que ocê era bandido e atirou primeiro. Desculpa, Zé, mas ao invés de derrubar esperança no nosso menino eu vou dividir com ele duras verdades. 
_ Todos os dias são errados para os Zé e Marias ninguém como a gente, meu filho. Todos os dias são errados para gente como a gente. 

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