quinta-feira, 12 de novembro de 2015

quando chegar a hora

por Carol Stampone

quando chegar a hora
de dizer que já não há tempo e
afirmar que as possibilidades perderam-se com o vento
que tal invencionar em voz alta que
foi
a hora que chegou atrasada
o tempo que decidiu voltar para casa,
porque percebeu chuva a caminho
e tinha esquecido o guarda-chuva?

quando chegar a hora
de abrir a boca para derrubar culpa
ou gastar os dedos para apontar culpados
que tal invencionar um lugar sagrado?
uma casa
onde cabe tudo e todos que sabem dançar
e que não esquecem que a culpa é coisa vazia e afiada
que devia ocupar ninguém e lugar nenhum.

quando chegar a hora
de fazer alguém menor
só pelo prazer daquele tiquinho de micro poder
que nem sabe grudar na mala nem nada
que tal abrir a pele, a boca e o ânus
e deixar aquela feiúra escapar de ti
escorregar no mundo e reviver outra coisa?

quando chegar a hora
de quebrar, despedaçar
desaprender a andar sozinho
que tal gastar um tubo inteirinho de cola
e reiventar a você mesmo
como fazia o menino pequeno na escola
nos dias de começo?
quando ele ainda acreditava
que a beleza sabia caber entre os punhados de algodão e de gliter e lantejoulas
lembra?
o menino juntava aquilo tudo, metia cola e mais cola, até grudar os próprios sonhos, metade entre os dedos e a outra metade no papel
depois levava aquilo para casa
e mostrava para mãe com tanta certeza de triumfo que ela esquecia a feiura da coisa e ria
e vivia mais alta, mais inteira, menos cansada
por um momento.

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