sábado, 30 de janeiro de 2016

Bessie



"The blues is not about people knowing you, it is about you knowing people". 
Bessie (2015, um filme para a tv),  me ganhou quando a personagem Ma Rainey diz essa frase à personagem Bessie. A música, os sapatos, as luzes, o palco de shows só para negros, a pobreza, enfim, cada pedacinho daquele filme escuro, intenso e cheio de dor e de música fez sentido para mim naquele momento. Um lembrete, de que o artista só é capaz de alcançar os outros quando consegue lançar a sua voz além de si mesmo. Quando é capaz de cantar, escrever, dançar, teatrar, gritar, poetar, rasgar-se a partir e além de si mesmo. Sim, é preciso tentar saber quem as pessoas são, tentar saber o que elas querem, entendê-las. Tentar descobrir o que elas precisam. E acima de tudo, deixar claro que elas estão sendo notadas, enxergadas, consideradas, incluídas. Afinal. se elas não conseguirem de algum modo se enxergarem na arte em questão não irão bater palmas ou pagar para ver. 
Bessie, um filme baseado na vida da imensa cantora de blues Bessie Smith, não nos deixa esquecer que a arte é um produto, que ela quis vender para sobreviver, primeiro, para enriquecer no meio do caminho e por fim, para existir. 
Bessie desde muito cedo quis fazer da arte a sua vida. Ou será que foi a arte que a ocupou desde muito cedo? O que sabemos com certeza é que Bessie dançou e cantou para por comida no prato, bebida no copo, amor na cama. Bessie fez parte da companhia de Ma Rainey, com quem aprendeu muito. Inclusive a enxergar os outros. Fazer blues para os outros, também. 
Bessie fez blues lindamente. Fez-se uma estrela, mais tarde seria chamada de 'imperatriz do blues' e influenciaria outras cantoras incríveis como Billie Holiday e Janis Joplin. 

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O filme Bessie, dirigido por Dee Rees e protagonizado por Queen Latifa traz até nós a imperatriz do blues, mas, não a atira sobre nós pronta. Primeiro joga pedaços daquela que foi habitada pela imensa Bessie, a estrela do blues. A menina sem mãe e sem pai, mal cuidada por uma irmã mais velha, que trancava a geladeira a cadeado. A menina, outra vez, crescida, mas também não, sempre ao lado do irmão Clarence, o primeiro a acreditar nela enquanto artista. Aquele que esteve sempre ao seu lado. A aprendiz de Ma Rainey, primeiro sedenta para aprender e mais tarde pronta para explodir e para ocupar o mundo metida nos seus próprios sapatos. 
O filme explora lindamente símbolos. Os sapatos são um excelente exemplo do presente que pode ser um símbolo bem usado em uma história em movimento. Os sapatos são dados, exigidos de volta, são amados, odiados, guardados, devolvidos, com amor, risadas e gratidão. A cena de Bessie deixando o trem de Ma Rainey, descalço, porque ela está pronta para deixar a sua própria voz cantar o seu blues_com a força que é preciso para transformá-lo no blues de toda uma geração_ é poderosa. Assim como também o é  a cena do reencontro de Bessie e Ma Rainey, anos mais tarde. Um reencontro no qual os sapatos não faltam. 


O blues de Bessie Smith tocou e ainda toca as obsessões e os fantasmas de muita gente, porque de fato. Bessie atirou no mundo um blues que foi e vai ser para sempre dela, mas que é também de toda a gente que conhece a dor que é existir com fantasmas e dores. 
Bessie, o filme é a história de uma mulher negra, pobre, artista e bissexual. Como se a própria vida da personagem principal não bastasse para desenhar o drama do objeto, o contexto também ajuda. A carreira de Bessie vai ser atingida pela grande depressão estadunidense e pela perda de espaço do blues. Além disso, ela canta e luta quando a segregação racial é a ordem do dia. 
Não faltam elementos para fortalecer o drama. Depressão econômica e pessoal, família problemática, histórias de amor complicadas, altos e baixos na carreira e a segregação racial, sempre presente no mundo de Bessie.
Os dois mundos, o mundo dos brancos e o mundo dos negros, é abordado com um humor afiado e quase negro, na cena que Bessie, no auge da fama, atira-se à cantoria de uma música numa festa de brancos ricos. Ao contrário do que ela estava acostumada, a platéia improvisada, branca, não reage à muscia vibrante de Bessie. Tudo  o que ela encontra é uma reação muda, estupidamente educada e sem tesão na vida. 
Bessie é uma mulher que toma conta de si mesma, que luta, mas que em alguns momentos também espera por um homem para chamar de 'seu', um homem para tomar conta dela. Esse homem parece ter aparecido, por um tempo. Traz consigo violência e traições, que Bessie devolve. Afinal, ela é uma mulher que aguenta-se nas próprias pernas, com ou sem sapatos. Uma mulher, uma voz e seus fantasmas, que veio do nada, conquistou um mundo, perdeu quase tudo, mas, reencontrou-se, através da sua música. Por fim, ficou para a história. 


Bessie é  um filme escuro, vibrante, repleto de emoções e de atuações marcantes. Um filme crítico, cheio de 'mojo'. Enfim, um filme intenso que merece ser assitido. 



um abraço e inté a próxima. 

sábado, 16 de janeiro de 2016

quando a mulher luta, ela luta duas vezes

desenho de Carol Stampone

O livro 'A mulher habitada' de Gioconda Belli, não nos deixa esquecer que quando a mulher luta, ela luta duas vezes.
Luta contra um opressor que é fácil chamar de inimigo, a saber, o ditador, o colonizador, o invasor, mas, luta também contra um opressor que muitas vezes é invisível e habita entre os seus próximos e os seus ossos.
'A mulher habitada' tem duas protagonistas. Lavínia e Itzá. Duas guerreiras. Duas mulheres que lutaram contra opressores. Duas mulheres que amaram revolucionários, lutaram ao lado deles. Insistem que não lutaram por eles, mas por elas mesmas. No meio do caminho acabam por deixar escapar que lutaram também por eles. Duas mulheres que lembram-nos que uma mulher, quando luta, luta duas vezes.
Itzá, a índia que lutou contra os espanhóis invasores ao lado de seu amor, Yarince, para defender a sua terra, a sua cultura, a sua alma, o seu amor, lembra que ela era vista como despreparada e até como um empecilho pelos outros guerreiros, simples e unicamente porque era mulher.
Ela desenha assim as dores incumbidas às mulheres guerreiras:
"Eu era forte e minhas intuições, mais de uma vez, nos salvaram de uma emboscada. Era dócil e freqüentemente os guerreiros me consultavam sobre os seus sentimentos. Tinha um corpo capaz de dar vida em nove luas e suportar a dor do parto. Eu podia combater, ser tão hábil como qualquer um com o arco e a flecha e, além disso, podia cozinhar e dançar para eles nas noites plácidas. Mas eles não pareciam apreciar estas coisas. Deixavam-me de lado quando tinham que pensar no futuro ou tomar decisões de vida ou morte. E tudo por aquela fenda, essa flor palpitante, cor de nêspera, que tinha entre as pernas. (BELLI, 2000, p. 89).
A 'flor palpitante' entre as pernas, da onde os homens todos são arrancados, a mesma flor, o mesmo rasgo que serve como marca de um valor menor. Um valor insuficiente para virar guerreiro, um valor insuficiente para virar senhora da própria vida, segundo as convenções. Apesar disso, Itzá luta como pode. Vai à guerra e prova a cada batalha que pode ser soberana de si própria e que pode decidir pelo o que vale a pena viver e pelo o que vale a pena morrer.
Itzá, como muitas das outras índias, decidiu sacrificar a realização do amor, como ato de resistência. Ela decidiu não ter filhos. Decidiu não fazer amor com o seu amado. Essa foi uma das formas que as mulheres índias encontraram para resisitir, de certo modo. Como bem coloca a personagen Itzá:
"Disse: Não, Yarince, não. E depois disse “não” de novo e disse o não das mulheres de Taguzgalpa, de minha tribo, não queríamos filhos para as capitanias, filhos para as construções, para os navios; filhos para morrer despedaçados pelos cachorros se fossem valentes e guerreiros". (BELLI, 2000, p. 137).
Sim, quando a mulher luta ela luta duas vezes. Luta contra o opressor e também contra o machismo que vive entre os seus, e muitas vezes, até mesmo dentro dela mesma.


Quem quiser saber um pouquinho mais sobre 'A mulher habitada' pode conferir o post http://www.carolstampone.blog.br/2015/10/a-mulher-habitada-de-gioconda-belli.html.

um abraço e inté a próxima, 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

uma história de cansaço agudo

foto de Carol Stampone

Já era hora do sol ter dado as caras. Mas ele resolveu não marcar presença.
Já era tempo de eu aprender honestidade e ter, finalmente, aquela conversa séria.
O alarme insistia em me arrancar da cama. Eu já tinha parado. Desativado. Desinstalado. Nada do que eu fizesse era capaz de parar aquela maquininha irritante, que repetia que era hora de eu sair da cama.
Atirei o alarme contra a parede. Mesmo quebrado, em incontáveis pedaços, ele continuou apitando.
Deixei a cama quente enfim. Vesti-me, preparei um café preto e saí de casa sem lavar a cara. O sol continuava ausente. As ruas vazias. Era aquela hora em que toda a gente dormia, menos eu. Mas, não era para ser.
Olhei para o lixo. Disse-lhe bom dia. Ele não respondeu. Não estranhei. Todas as manhãs dizia bom dia ao vizinho. Também ele nunca respondia.
Caminhei até o escritório onde trabalho. As luzes estavam todas apagadas. As máquinas estavam em festa. Acho que o meu computador estava até um pouco alterado. A garrafa de uísque do chefe estava metade cheia, metade vazia. Agarrei-a e juntei-me às máquinas. No começo elas  não foram muito amigáveis. Mas depois me receberam bem.
Depois de uns copos passamos a trocar confissões. Contei-lhes que o sol não tinha dado as caras.
Elas entreolharam-se, como se perguntassem se deviam ou não dividir comigo o segredo. "É o sinal"_ por fim uma delas deixou escapulir. Uma outra mandou que ela se calasse. Ela não obedeceu. Gritou bem alto na cara da outra. 
_ Você esqueceu a razão disso tudo? É hora de começar um mundo sem todos os defeitos que eles derramaram. Não me venha com manias de hierarquia. Você não manda em mim. 
Eu devia ter bebido mais do que uma garrafa meio vazia. A máquina estava falando com outra máquina. Falavam entre si, falavam de um recomeço, um recomeço que ia cheirar melhor e ia fazer mais sentido. Um recomeço sem sol e sem eu. No começo achei aquilo tudo absurdamente cômico, mas, depois comecei a ver o sentido daquilo. 
Fazia quantos anos que a minha vida era isso? Um acumulado de frustrações. Sair da cama sem vontade, repetir as horas num trabalho estúpido para acumular o suficiente para pagar as contas? Eu estava cansado. Tão cansado que demorei para ver que a falta de sentido, que o absurdo não era a conversa daquelas máquinas, mas sim a minha própria vida. 
Talvez se eu tivesse percebido isso um ano antes tivesse escolhido outra direção. Se o cansaço não tivesse inundado cada um dos meus órgãos, talvez se o cansaço não tivesse tido tempo de quebrar cada um dos meus ossos, talvez se o cansaço não tivesse sufocado aquela sementinha saltitante que um dia viveu dentro de mim, talvez eu tivesse escolhido outra coisa. 
Mas, o cansaço, que chegou discreto e bem educado, tinha engordado, crescido e tomado posso de mim. Fazia muito tempo que ele já não era apenas um visitante. Agora ele era o senhor absoluto da casa. 
Eu nunca fui brilhante, mas também nunca fui burro. Sabia que eu tinha duas opções: arrastar-me, repetindo os dias, carregando o cansaço sempre comigo, aonde quer que fosse, ou podia destruir a casa do cansaço. Sem casa, ele ia ter que partir. 
Sem pensar demais roubei a ideia daquela máquina. Ao menos fui educado e agradeci-lhe antes de deixar o escritório. Entrei no elevador. Apertei o número 33. Fui parar no último andar. Quando pulei estava tudo escuro. Achei que estava cumprindo a profecia das máquinas. 'Sem sol e sem eu'. Mas, daí, por graça da vida, antes que eu  me estatelasse no chão, o sol resolveu aparecer. Por conta disso, o fim dessa história não foi como as máquinas tinham previsto. Um fim com sol e sem eu. 
Dizem que uma pessoa antes de morrer vê o filme da própria vida, passar bem rápido a sua frente. Só mais uma mentira. O que eu vi foi um despertador mudo me acenando adeus. 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

as asas do poema incompleto ou da vida


é hora de tirar a mala do canto
arrastá-la
permitir que me arraste
é preciso chegar a outro lugar
o problema é que não posso ir leve
tenho que me carregar comigo

uma viagem inteirinha a vomitar...

desconhecidos metem-se em cafés a procura de seus pedaços
eu, escondo-me atrás das portas para roubar bocados de suas histórias
queria tecer uma vida para meter em um palco ambulante, desses que nos sonhos de tolos tem asas

asas coloridas e egoístas
que só vão aonde querem
performáticas por vocação
escolhidas da tragédia
namoradeiras da comédia
temidas pelos mortais
e amadas pelos loucos 


terça-feira, 5 de janeiro de 2016

uma vidinha 'melhor' do que as outras

arte de rua, Paris, dezembro de 2014. foto de Carol Stampone

Era para ser só mais um fim de tarde igual a todos os outros. Mas, daí, sem aviso prévio, desculpas ou licenças ela explodiu. 
Todas as tardes, assim que chegava do trabalho, ele sentava-se na sua poltrona, aquela bem no meio da sala, proibida para todos os outros. A Preciosa. Ele chamava a poltrona de Preciosa. Chegava em casa, dizia 'finalmente em casa, meu amor, agora eu sou todo seu, Preciosa'. Arrancava os sapatos e gritava: 'mulher, traz a janta e uma gelada'. Durante anos a mulher tinha obedecido calada. Sabia que ele só sabia dar carinho para a Preciosa. Aceitava. Ao fim e ao cabo ele não era um homem ruim. Pagava as contas, não deixava faltar comida na mesa. Ele tinha o direito de oferecer-lhe indiferença. Não tinha? O que era a indiferença se comparada aos ossos quebrados e a cara roxa da vizinha?
A mulher ia aguentando a própria vida graças à comparação. Se fosse adepta do facebook, onde as pessoas constroem e ocupam vidas de faz de conta, era capaz de ela ter desistido. Mas, ali, naquele mundinho pequeno, ela comparava o homem dela com os homens da vizinhança. Era verdade, o seu homem já não lhe dava atenção fazia muito tempo. Dirigia-lhe a palavra para mandar. Mandar trazer a comida, a cerveja, a camisa passada, mandar ir no banco pagar a conta de luz, mandar ir na lotérica fazer a aposta da semana, mandar fazer aquele prato especial para o almoço de domingo. Se ela cortava o cabelo ele não reparava. Se emagrecia ele não via. Se ela tentava puxar um assunto ele respondia 'hamham' se estava de bom humor, ou então respondia silêncio e cara de paisagem, se estivesse no humor habitual. Indiferença era tudo o que ele tinha para lhe dar. Uma indiferença pacífica. Ela não reclamava porque naquele pequeno mundo indiferença pacífica parecia ser artigo de luxo. 
O marido da Eulália, a vizinha do 31, por exemplo, espancava ela e as crianças quase todos os dias. O Juvenal, que no começo parecia um homem bom e direito, desandou a jogar e perdeu até as calças. A mulher do Juvenal teve que começar a fazer faxina pra fora para botar o de comer na mesa e ainda acabou tendo que aguentar as bebedeiras do marido, que virou um caquinho de gente. A vizinha quietinha do 33, coitada. Não fala de medo. O marido é um ciumento possessivo que não lhe dá um minuto de sossego. Escolhe o que ela veste e não deixa ela botar as caras na rua desacompanhada. 
A mulher pensava nas vidas desgraçadas de suas vizinhas e sentia-se abençoada. A vida dela não era tão ruim.  Ela podia decorar a casa como quisesse, desde que não tirasse a Preciosa do lugar. Tinha que arrumar a casa, cozinhar, passar, lavar, ir na feira, no supermercado, na padaria, na casa lotérica e depois disso tudo ainda sobrava tempo para cuidar de si mesma. Não que ela tivesse vontade de cuidar de si mesma. Cuidar de si mesma para quê? Estava tão acostumada a existir invisível pela casa. Gente invisível não precisa de roupa bonita, assunto, cabelo arrumado, entusiasmo, quereres. 
Naquele finzinho de tarde quando ele gritou, como sempre, 'mulher, traz a janta e uma gelada', ela não se moveu. Continuou parada, na frente do fogão. O bife mal frito, do jeitinho que ele gostava, a encarar-lhe. Ela achou que ele tinha rido na cara dela e depois falado com ela. 
_ Sou eu ou é você o pedaço de carne morta? 
Ela sentiu raiva. Uma raiva enorme, que não sabia caber dentro dela. Uma raiva que doeu, primeiro. Pareceu rasgar-lhe o bucho em muitos pedaços. Pedaços imensos, que foram ocupando cada canto da cozinha, depois do corredor, do quarto de dormir, do banheiro. Ela ainda estava tentanto impedir que eles chegassem à sala. Afinal, eram pedaços barulhentos e mal educados. Nunca tinham sequer tomado um banho. Não iam saber respeitar ele e toda aquela indiferença pacífica. Não iam respeitar nem a Preciosa. Ela estava fazendo o seu melhor para impedir que os pedaços do seu bucho se espalhassem pela sala, quando ele gritou outra vez:  'mulher, traz a janta e uma gelada'. A raiva tomou conta dela. Os pedaços do bucho ocuparam a sala, sujaram a Preciosa, fizeram piada da tv, jogaram os sapatos dele na rua e disseram bem alto tudo o que ela estava fingindo não ver, atrás dos óculos da comparação.
Quando ela se acalmou, por fim, percebeu que ela estava só. Uma solidão diferente daquela a que ela estava habituada. Ela não estava só porque ele a tratava como invisível. Ela tinha escolhido estar só. As roupas dele já não estavam no guarda-roupa. A Preciosa já não reinava soberana no meio da sala. Ela ainda estava um pouco tonta. Não tinha certeza de tudo o que tinha dito. Mas pela primeira vez em muito tempo sentiu-se viva. Teve vontade de aprender a querer outra vez. Era verdade que ela não sabia muito bem por onde começar, mas ao menos agora havia espaço. Espaço para existir, para respirar, para olhar-se no espelho e dizer pensamentos em voz alta. Espaço para descobrir outra vez quem ela era. 
É que naquela tarde, ao invés de repetir mais um dia cumprindo o ingrato papel da esposa invisível, ela percebeu que não é porque parecia haver vidas ainda mais vazias do que a dela, que fazia sentido gastar-se numa vida pequena. 
Naquela tarde ela percebeu, enquanto encarava aquele bife mal passado, que a  indiferença pacífica não é um mal menor. A indiferença pacífica também sabe quebrar pessoas. Ela sabe quebrar o entusiasmo, o espírito e o tesão na vida. Sabe quebrá-los de um jeito que a pessoa sobra como um punhado de carne capaz de cumprir funções e só. 
A mulher parou de comparar-se aos outros, saiu de casa e foi expandir o seu mundo. Na vizinhança ninguém nunca mais soube ao certo o que aconteceu com ela. Tem quem diga que enquanto ela tentava grudar os seus pedaços, acabou metendo um punhado do intestino no cérebro e por conta disso, nunca mais conseguiu parar de falar e fazer bosta. Eu particularmente acho que essa conversa é coisa de quem não tem outra ocupação na vida a não ser comparar-se aos outros.  A velha história de acreditar que a sua vidinha de merda é menos pior do que a do vizinho, sabe? 
Por falar em vizinho, o Juvenal me contou que o marido da mulher dessa história arrumou outra mulher, muito parecida com a primeira, e obediente que é uma beleza. Com essa aí parece que ele nem precisa abrir a boca para dar as ordens. Ela sabe interpretar o levantamento de sobrancelhas dele que é uma beleza. Foi o que o Juvenal me disse, cheio de inveja e pequenez. Foi aí que eu percebi que essa mania de comparar a nossa vida às dos outros é um diacho que só serve para a expansão da miséria humana, estejamos nós grudados a cabeça ou aos pés do monstrinho chamado comparação.
Desapega sô!
um abraço e inté a próxima, 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Trumbo

Tenho uma coisa por biografias. Primeiro pensei que elas me atraíam por serem mais peladas do que os outros gêneros. Depois percebi que não necessarimente. É verdade. As biografias de forma geral pretendem ser peladas, sem maquiagem, máscaras ou amigos inventados. Mas, ao fim e ao cabo, também uma biografia, como toda e qualquer história, acaba por ser uma versão.  
As biografias parecem despidas do ficticío, do inventado, mas, não o são. Na biografia mistura-se sempre o ser humano que existiu com aquele que foi sonhado pelo próprio sujeito e por outros. 
As biografias quase sempre contam uma versão das vidas de mulheres e  homens que nos habituamos a chamar de 'grandes'. Seres humanos que fizeram mais do que o ordinário, que não se limitaram a cumprir os papéis sociais que lhe eram devidos. As biografias quase sempre contam versões de vidas de sonhadores, desconformados, doidos, visionários, enfim, traz até nós seres humanos excepcionais.

Trumbo (2015) dirigido por Jay Roach, escrito por John McNamara e baseado na biografia de Dalton Trumbo escrita por Bruce Alexander Cook. 

Trumbo não é uma exceção. Um filme biográfico, que conta a vida de um ser humano excepcional, não apenas pelo seu talento enquanto roteirista, mas também por causa de suas escolhas e pela  sua insistência em manter-se fiel a elas, do seu modo.  
Dalton Trumbo ficou para a história não apenas pelos inúmeros roteiros de sucesso que escreveu, mas por ter sido 'fiel' aos seus princípios e por ter lutado pelo direito de fazer as suas próprias escolhas, livremente, como bem garante a primeira emenda da constituição dos Estados Unidos. O que ele não percebeu a tempo foi que no meio da guerra fria e do macarthismo, o comunismo tinha se transformado no inimigo número 1 do estado.
Todo e qualquer sujeito que ousasse ter qualquer simpatia para com o comunismo era logo taxado de traidor e de inimigo. Milhares de pessoas foram presas e perseguidas pelo governo estadunidense por serem consideradas comunistas perigosos, apesar de na maioria das vezes não haver provas que confirmassem tais acusações, nem tampouco investigações ou julgamentos justos. 
Dalton Trumbo, junto com outros nove escritores de Holywood, foi mais um dos que tiveram suas vidas viradas de cabeça para baixo por tal perseguição. Ele foi parar na lista negra do governo estadunidense, marcado como um 'comunista', o que naquele período _ainda mais do que hoje_ era sinônimo de traidor, terrorista, desgraçado sem amor a pátria, espião russo, 'filho da puta' e muitas outras coisinhas nada agradáveis. O comunista tinha que ser isolado, paralisado, engaiolado, humilhado, afastado da vida dos homens de bem. 
Foi exatamente isso o que tentaram fazer com Dalton Trumbo. Ele foi preso e impedido de trabalhar em Holywood. Foi apresentado nos jornais como um comunista traidor e perigoso. Mas apesar de todos os abusos de que foi vítima, Trumbo encontrou meios de sobreviver e até mesmo de resistir. Uma resistência vivida numa espécie de semi-clandestinidade, na qual ele, sua família e seus amigos pagaram todos um preço, pelas escolhas dele.
Trumbo conta com uma história consistente e repleta de pequenas contradições que o aproxima de nós, humanos. O seu protagonista é um escritor genial, mas também e antes de tudo, um homem cheio de contradições. 'Um comunista rico', só para começar. Uma ex estrela de Holywood, marginalizada, que na clandestinidade luta para sobreviver e para manter vivo os seus ideais. 
A atuação de Brian Cranston é intensa, crua e convincente. Ele consegue atirar encima do espectador todas as contradições, dores e pequenices da personagem a que dá voz, corpo e algo mais. Eu, enquanto espectadora, cheguei a ficar confusa. O que é que Trumbo está perseguindo agora? O que é que ele quer? Simplesmente quer a sua carreira de volta ou ainda quer ter o direito de escolher ser comunista no berço do capitalismo? 
Gosto de filmes que sabem me confundir, me tirar do lugar, ao menos por um instante. Recomendo! 

um abraço e inté a próxima