segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Trumbo

Tenho uma coisa por biografias. Primeiro pensei que elas me atraíam por serem mais peladas do que os outros gêneros. Depois percebi que não necessarimente. É verdade. As biografias de forma geral pretendem ser peladas, sem maquiagem, máscaras ou amigos inventados. Mas, ao fim e ao cabo, também uma biografia, como toda e qualquer história, acaba por ser uma versão.  
As biografias parecem despidas do ficticío, do inventado, mas, não o são. Na biografia mistura-se sempre o ser humano que existiu com aquele que foi sonhado pelo próprio sujeito e por outros. 
As biografias quase sempre contam uma versão das vidas de mulheres e  homens que nos habituamos a chamar de 'grandes'. Seres humanos que fizeram mais do que o ordinário, que não se limitaram a cumprir os papéis sociais que lhe eram devidos. As biografias quase sempre contam versões de vidas de sonhadores, desconformados, doidos, visionários, enfim, traz até nós seres humanos excepcionais.

Trumbo (2015) dirigido por Jay Roach, escrito por John McNamara e baseado na biografia de Dalton Trumbo escrita por Bruce Alexander Cook. 

Trumbo não é uma exceção. Um filme biográfico, que conta a vida de um ser humano excepcional, não apenas pelo seu talento enquanto roteirista, mas também por causa de suas escolhas e pela  sua insistência em manter-se fiel a elas, do seu modo.  
Dalton Trumbo ficou para a história não apenas pelos inúmeros roteiros de sucesso que escreveu, mas por ter sido 'fiel' aos seus princípios e por ter lutado pelo direito de fazer as suas próprias escolhas, livremente, como bem garante a primeira emenda da constituição dos Estados Unidos. O que ele não percebeu a tempo foi que no meio da guerra fria e do macarthismo, o comunismo tinha se transformado no inimigo número 1 do estado.
Todo e qualquer sujeito que ousasse ter qualquer simpatia para com o comunismo era logo taxado de traidor e de inimigo. Milhares de pessoas foram presas e perseguidas pelo governo estadunidense por serem consideradas comunistas perigosos, apesar de na maioria das vezes não haver provas que confirmassem tais acusações, nem tampouco investigações ou julgamentos justos. 
Dalton Trumbo, junto com outros nove escritores de Holywood, foi mais um dos que tiveram suas vidas viradas de cabeça para baixo por tal perseguição. Ele foi parar na lista negra do governo estadunidense, marcado como um 'comunista', o que naquele período _ainda mais do que hoje_ era sinônimo de traidor, terrorista, desgraçado sem amor a pátria, espião russo, 'filho da puta' e muitas outras coisinhas nada agradáveis. O comunista tinha que ser isolado, paralisado, engaiolado, humilhado, afastado da vida dos homens de bem. 
Foi exatamente isso o que tentaram fazer com Dalton Trumbo. Ele foi preso e impedido de trabalhar em Holywood. Foi apresentado nos jornais como um comunista traidor e perigoso. Mas apesar de todos os abusos de que foi vítima, Trumbo encontrou meios de sobreviver e até mesmo de resistir. Uma resistência vivida numa espécie de semi-clandestinidade, na qual ele, sua família e seus amigos pagaram todos um preço, pelas escolhas dele.
Trumbo conta com uma história consistente e repleta de pequenas contradições que o aproxima de nós, humanos. O seu protagonista é um escritor genial, mas também e antes de tudo, um homem cheio de contradições. 'Um comunista rico', só para começar. Uma ex estrela de Holywood, marginalizada, que na clandestinidade luta para sobreviver e para manter vivo os seus ideais. 
A atuação de Brian Cranston é intensa, crua e convincente. Ele consegue atirar encima do espectador todas as contradições, dores e pequenices da personagem a que dá voz, corpo e algo mais. Eu, enquanto espectadora, cheguei a ficar confusa. O que é que Trumbo está perseguindo agora? O que é que ele quer? Simplesmente quer a sua carreira de volta ou ainda quer ter o direito de escolher ser comunista no berço do capitalismo? 
Gosto de filmes que sabem me confundir, me tirar do lugar, ao menos por um instante. Recomendo! 

um abraço e inté a próxima

Um comentário:

  1. nada mais contemporâneo do que Daltro Trumbo

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