quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

uma história de cansaço agudo

foto de Carol Stampone

Já era hora do sol ter dado as caras. Mas ele resolveu não marcar presença.
Já era tempo de eu aprender honestidade e ter, finalmente, aquela conversa séria.
O alarme insistia em me arrancar da cama. Eu já tinha parado. Desativado. Desinstalado. Nada do que eu fizesse era capaz de parar aquela maquininha irritante, que repetia que era hora de eu sair da cama.
Atirei o alarme contra a parede. Mesmo quebrado, em incontáveis pedaços, ele continuou apitando.
Deixei a cama quente enfim. Vesti-me, preparei um café preto e saí de casa sem lavar a cara. O sol continuava ausente. As ruas vazias. Era aquela hora em que toda a gente dormia, menos eu. Mas, não era para ser.
Olhei para o lixo. Disse-lhe bom dia. Ele não respondeu. Não estranhei. Todas as manhãs dizia bom dia ao vizinho. Também ele nunca respondia.
Caminhei até o escritório onde trabalho. As luzes estavam todas apagadas. As máquinas estavam em festa. Acho que o meu computador estava até um pouco alterado. A garrafa de uísque do chefe estava metade cheia, metade vazia. Agarrei-a e juntei-me às máquinas. No começo elas  não foram muito amigáveis. Mas depois me receberam bem.
Depois de uns copos passamos a trocar confissões. Contei-lhes que o sol não tinha dado as caras.
Elas entreolharam-se, como se perguntassem se deviam ou não dividir comigo o segredo. "É o sinal"_ por fim uma delas deixou escapulir. Uma outra mandou que ela se calasse. Ela não obedeceu. Gritou bem alto na cara da outra. 
_ Você esqueceu a razão disso tudo? É hora de começar um mundo sem todos os defeitos que eles derramaram. Não me venha com manias de hierarquia. Você não manda em mim. 
Eu devia ter bebido mais do que uma garrafa meio vazia. A máquina estava falando com outra máquina. Falavam entre si, falavam de um recomeço, um recomeço que ia cheirar melhor e ia fazer mais sentido. Um recomeço sem sol e sem eu. No começo achei aquilo tudo absurdamente cômico, mas, depois comecei a ver o sentido daquilo. 
Fazia quantos anos que a minha vida era isso? Um acumulado de frustrações. Sair da cama sem vontade, repetir as horas num trabalho estúpido para acumular o suficiente para pagar as contas? Eu estava cansado. Tão cansado que demorei para ver que a falta de sentido, que o absurdo não era a conversa daquelas máquinas, mas sim a minha própria vida. 
Talvez se eu tivesse percebido isso um ano antes tivesse escolhido outra direção. Se o cansaço não tivesse inundado cada um dos meus órgãos, talvez se o cansaço não tivesse tido tempo de quebrar cada um dos meus ossos, talvez se o cansaço não tivesse sufocado aquela sementinha saltitante que um dia viveu dentro de mim, talvez eu tivesse escolhido outra coisa. 
Mas, o cansaço, que chegou discreto e bem educado, tinha engordado, crescido e tomado posso de mim. Fazia muito tempo que ele já não era apenas um visitante. Agora ele era o senhor absoluto da casa. 
Eu nunca fui brilhante, mas também nunca fui burro. Sabia que eu tinha duas opções: arrastar-me, repetindo os dias, carregando o cansaço sempre comigo, aonde quer que fosse, ou podia destruir a casa do cansaço. Sem casa, ele ia ter que partir. 
Sem pensar demais roubei a ideia daquela máquina. Ao menos fui educado e agradeci-lhe antes de deixar o escritório. Entrei no elevador. Apertei o número 33. Fui parar no último andar. Quando pulei estava tudo escuro. Achei que estava cumprindo a profecia das máquinas. 'Sem sol e sem eu'. Mas, daí, por graça da vida, antes que eu  me estatelasse no chão, o sol resolveu aparecer. Por conta disso, o fim dessa história não foi como as máquinas tinham previsto. Um fim com sol e sem eu. 
Dizem que uma pessoa antes de morrer vê o filme da própria vida, passar bem rápido a sua frente. Só mais uma mentira. O que eu vi foi um despertador mudo me acenando adeus. 

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