terça-feira, 5 de janeiro de 2016

uma vidinha 'melhor' do que as outras

arte de rua, Paris, dezembro de 2014. foto de Carol Stampone

Era para ser só mais um fim de tarde igual a todos os outros. Mas, daí, sem aviso prévio, desculpas ou licenças ela explodiu. 
Todas as tardes, assim que chegava do trabalho, ele sentava-se na sua poltrona, aquela bem no meio da sala, proibida para todos os outros. A Preciosa. Ele chamava a poltrona de Preciosa. Chegava em casa, dizia 'finalmente em casa, meu amor, agora eu sou todo seu, Preciosa'. Arrancava os sapatos e gritava: 'mulher, traz a janta e uma gelada'. Durante anos a mulher tinha obedecido calada. Sabia que ele só sabia dar carinho para a Preciosa. Aceitava. Ao fim e ao cabo ele não era um homem ruim. Pagava as contas, não deixava faltar comida na mesa. Ele tinha o direito de oferecer-lhe indiferença. Não tinha? O que era a indiferença se comparada aos ossos quebrados e a cara roxa da vizinha?
A mulher ia aguentando a própria vida graças à comparação. Se fosse adepta do facebook, onde as pessoas constroem e ocupam vidas de faz de conta, era capaz de ela ter desistido. Mas, ali, naquele mundinho pequeno, ela comparava o homem dela com os homens da vizinhança. Era verdade, o seu homem já não lhe dava atenção fazia muito tempo. Dirigia-lhe a palavra para mandar. Mandar trazer a comida, a cerveja, a camisa passada, mandar ir no banco pagar a conta de luz, mandar ir na lotérica fazer a aposta da semana, mandar fazer aquele prato especial para o almoço de domingo. Se ela cortava o cabelo ele não reparava. Se emagrecia ele não via. Se ela tentava puxar um assunto ele respondia 'hamham' se estava de bom humor, ou então respondia silêncio e cara de paisagem, se estivesse no humor habitual. Indiferença era tudo o que ele tinha para lhe dar. Uma indiferença pacífica. Ela não reclamava porque naquele pequeno mundo indiferença pacífica parecia ser artigo de luxo. 
O marido da Eulália, a vizinha do 31, por exemplo, espancava ela e as crianças quase todos os dias. O Juvenal, que no começo parecia um homem bom e direito, desandou a jogar e perdeu até as calças. A mulher do Juvenal teve que começar a fazer faxina pra fora para botar o de comer na mesa e ainda acabou tendo que aguentar as bebedeiras do marido, que virou um caquinho de gente. A vizinha quietinha do 33, coitada. Não fala de medo. O marido é um ciumento possessivo que não lhe dá um minuto de sossego. Escolhe o que ela veste e não deixa ela botar as caras na rua desacompanhada. 
A mulher pensava nas vidas desgraçadas de suas vizinhas e sentia-se abençoada. A vida dela não era tão ruim.  Ela podia decorar a casa como quisesse, desde que não tirasse a Preciosa do lugar. Tinha que arrumar a casa, cozinhar, passar, lavar, ir na feira, no supermercado, na padaria, na casa lotérica e depois disso tudo ainda sobrava tempo para cuidar de si mesma. Não que ela tivesse vontade de cuidar de si mesma. Cuidar de si mesma para quê? Estava tão acostumada a existir invisível pela casa. Gente invisível não precisa de roupa bonita, assunto, cabelo arrumado, entusiasmo, quereres. 
Naquele finzinho de tarde quando ele gritou, como sempre, 'mulher, traz a janta e uma gelada', ela não se moveu. Continuou parada, na frente do fogão. O bife mal frito, do jeitinho que ele gostava, a encarar-lhe. Ela achou que ele tinha rido na cara dela e depois falado com ela. 
_ Sou eu ou é você o pedaço de carne morta? 
Ela sentiu raiva. Uma raiva enorme, que não sabia caber dentro dela. Uma raiva que doeu, primeiro. Pareceu rasgar-lhe o bucho em muitos pedaços. Pedaços imensos, que foram ocupando cada canto da cozinha, depois do corredor, do quarto de dormir, do banheiro. Ela ainda estava tentanto impedir que eles chegassem à sala. Afinal, eram pedaços barulhentos e mal educados. Nunca tinham sequer tomado um banho. Não iam saber respeitar ele e toda aquela indiferença pacífica. Não iam respeitar nem a Preciosa. Ela estava fazendo o seu melhor para impedir que os pedaços do seu bucho se espalhassem pela sala, quando ele gritou outra vez:  'mulher, traz a janta e uma gelada'. A raiva tomou conta dela. Os pedaços do bucho ocuparam a sala, sujaram a Preciosa, fizeram piada da tv, jogaram os sapatos dele na rua e disseram bem alto tudo o que ela estava fingindo não ver, atrás dos óculos da comparação.
Quando ela se acalmou, por fim, percebeu que ela estava só. Uma solidão diferente daquela a que ela estava habituada. Ela não estava só porque ele a tratava como invisível. Ela tinha escolhido estar só. As roupas dele já não estavam no guarda-roupa. A Preciosa já não reinava soberana no meio da sala. Ela ainda estava um pouco tonta. Não tinha certeza de tudo o que tinha dito. Mas pela primeira vez em muito tempo sentiu-se viva. Teve vontade de aprender a querer outra vez. Era verdade que ela não sabia muito bem por onde começar, mas ao menos agora havia espaço. Espaço para existir, para respirar, para olhar-se no espelho e dizer pensamentos em voz alta. Espaço para descobrir outra vez quem ela era. 
É que naquela tarde, ao invés de repetir mais um dia cumprindo o ingrato papel da esposa invisível, ela percebeu que não é porque parecia haver vidas ainda mais vazias do que a dela, que fazia sentido gastar-se numa vida pequena. 
Naquela tarde ela percebeu, enquanto encarava aquele bife mal passado, que a  indiferença pacífica não é um mal menor. A indiferença pacífica também sabe quebrar pessoas. Ela sabe quebrar o entusiasmo, o espírito e o tesão na vida. Sabe quebrá-los de um jeito que a pessoa sobra como um punhado de carne capaz de cumprir funções e só. 
A mulher parou de comparar-se aos outros, saiu de casa e foi expandir o seu mundo. Na vizinhança ninguém nunca mais soube ao certo o que aconteceu com ela. Tem quem diga que enquanto ela tentava grudar os seus pedaços, acabou metendo um punhado do intestino no cérebro e por conta disso, nunca mais conseguiu parar de falar e fazer bosta. Eu particularmente acho que essa conversa é coisa de quem não tem outra ocupação na vida a não ser comparar-se aos outros.  A velha história de acreditar que a sua vidinha de merda é menos pior do que a do vizinho, sabe? 
Por falar em vizinho, o Juvenal me contou que o marido da mulher dessa história arrumou outra mulher, muito parecida com a primeira, e obediente que é uma beleza. Com essa aí parece que ele nem precisa abrir a boca para dar as ordens. Ela sabe interpretar o levantamento de sobrancelhas dele que é uma beleza. Foi o que o Juvenal me disse, cheio de inveja e pequenez. Foi aí que eu percebi que essa mania de comparar a nossa vida às dos outros é um diacho que só serve para a expansão da miséria humana, estejamos nós grudados a cabeça ou aos pés do monstrinho chamado comparação.
Desapega sô!
um abraço e inté a próxima, 

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