segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Third Person

Third Person (2013) dirigido e escrito por Paul Haggis. 

Aviso: Esse post contém spoilers.

Liguei a televisão e cruzei com esse filme.  Vinte minutos já tinha passado. Assisti uma cena, depois outra. Acabei deixando-me ficar na frente da tv. O que puxou por mim foi o caos, consequência dos pedaços de histórias, pedaços de vidas de gente diferente.
Um homem e uma mulher, em Paris. Os dois escrevem. Ele, um escritor famoso, passando por uma crise literária. Mais tarde a gente entende que a crise não é só literária. Não teria como sê-lo. Ele é um daqueles escritores que só existem para escrever. Vive para escrever. Faz da própria vida o sangue, a carne e os ossos daquilo que escreve. Não importa o preço.
Ela, a mulher da história que se desenrola em Paris, não é a mulher por direito (se é que tal coisa existe...). Enfim, ela é a mulher amada, a mulher escolhida pelo amor, naquele momento. Uma mulher que muitas vezes  se comporta como criança, apesar de gritar, bem alto, que é dona de si mesma. Os clichês às vezes sabem das coisas. O velho clichê de que quem grita aos quatro cantos que é feliz, na verdade não o é, tem razão, nesse caso. Ela carrega consigo um segredo, pesado. Algo aconteceu com ela, uma história de amor e/ou de abuso, depende do ponto de vista, que a deixou para sempre quebrada. Para sempre criança, na hora de amar.
Na outra história, outro homem e outra mulher, dessa vez em Roma. Dois estranhos que se conhecem num bar. Um estrangeiro, de passagem. Outra estrangeira, para sempre estrangeira, dentro e fora da sociedade. Para ele falta o domínio da língua e sobra a aparência certa. Para ela falta a aparência certa, a cidadania, apesar de possuir o domínio da língua. Uma cigana e um estrangeiro rico. Entre eles uma criança. Na verdade, duas crianças. Cada qual carrega a sua criança. É a criança que eles carregam que marca a história que eles acabarão por desenhar. Uma história torta, feita sem os ingredientes certos para um final feliz, mas, que apesar disso, tem a chance de acabar esbarrando nele ou em algo muito próximo a ele.
Noutra história, dessa vez em Nova York, mais um homem e mais uma mulher. Eles tiveram um filho juntos. Ela abriu mão de tudo pelo filho e acabou perdendo o filho, tudo o que tinha. Ela precisa provar que merece ser mãe. Outra vez. Ele está muito machucado. Para provar que ela merece rever o filho ela tenta ficar invisível. Abraça um trabalho de arrumadeira em um hotel. O mesmo hotel onde o primeiro casal se hospedou. Mas, espera aí, eles não estavam em Paris?
O modo que as três histórias se encontram, se completam, se esvaziam e significam como um todo, é parte importante desse filme. Um filme que mostra como tem sempre uma outra pessoa, uma terceira pessoa, que dá significado à nossas vidas. Seja porque dá cores aos nossos fantasmas, seja porque cria chão para nossa existência, seja porque espera algo de nós, seja porque nos visita. A terceira pessoa é aquele outro que faz de nós casa, sempre um pouco vazia. 
Recomendo o filme. Principalmente àqueles que como eu adoram uma história sobre aqueles que inventam histórias. 
Despeço-me com o trailler e com uma frase direcionada à personagem principal desse filme, o escritor. 
Num momento de aguda sinceridade, a mulher dele despeja-lhe encima, através da linha telefônica: 
"you love love. It is people that you don't have time for" (você ama o amor. É para as pessoas que você não tem tempo). 

um abraço e inté a próxima, 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

7 histórias de família



7 histórias de família é um livro de contos. 7 contos que têm em comum o mesmo chão: a família. A família que enlouquece, a família que acaba, a família que rotula e não enxerga o verdadeiro sujeito, a família que tem regras absurdas, a família que nasce de uma mentira. A família que se tem e a família que se quer ter.
Reuni nesse livro contos que nos fazem questionar o conceito de família, mas, mais do que isso, contos que trazem até nós o cheiro da solidão, as cores do desespero, a loucura e casas absurdas. A família é um ponto de partida. É uma metáfora do mundo, no qual diversas outras instituições repetem os erros e injustiças que primeiro aprendemos no seio da família.
7 histórias de família é um livro habitado pela ingenuidade e também pelo absurdo. Uso o absurdo para questionar, para provocar, para tirar do lugar. Ou será ele que usa a mim?
Ora deixo as vilãs falarem, ora dou voz às vítimas. As vozes que se ouvem nessas histórias são quase sempre de mulheres. Dos sete contos em questão, cinco são contados por mulheres, um é contato por um menino e o outro por um pessimista.
o conto 'um menino sem razão' traz até nós algumas das violências que se comete no seio da família, violências tantas vezes ignoradas, silenciadas. a violência doméstica, a violência de não aceitar a sexualidade de um outro. violências essas, que se levadas ao extremo podem enlouquecer.
'apenas Juliana' é a história de uma menina que finge ser o que não é, para agradar a família, para caber na família, para caber no mundo, como tantas outras Julianas e Marias e Carolinas lá fora.
'casamentos' é uma história de mulheres que aborda o casamento de uma forma crítica e talvez um pouco ingênua. uma história na qual digere-se bolos e outras famílias possíveis.
'silêncio de dois' é a história do fim de um casamento. uma história pesada. mais uma vez, o absurdo é uma ferramenta. o fim de uma relação levado ao absurdo ou só mais uma relação absurda?
'a senhora da casa' é uma história que questiona a soberania que a gente aprende desde pequeno, no nosso primeiro mundo, a família. uma história que viaja até os tempos da escravidão e que tem como narradora uma vilã.
'julieta e romeu ou uma história verídica de dor de cabeça' é um conto que brinca com as mentiras que contamos para os outros e expõe as mentiras que contamos para nós mesmos, ao mesmo tempo em que expõe o esqueleto frágil das famílias felizes.
'quando o homem das cabras sumiu' é prosa poética e desabafo. uma tentativa frustrada de escapar da família e de todas as outras instituições. uma tentativa desesperada de existir por si mesmo, sem ser parte do mundo absurdo.

Cada uma dessas sete histórias traz até nós qualquer coisa quebrada e mal cheirosa. A gente fica se perguntando no final se essa coisa é a família, o mundo ou o próprio humano.
Quem quiser conferir 7 histórias de família agora pode adquirir o e-book aqui.
                                                                                              um abraço e inté a próxima,

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

o homem de branco tem resposta e pílula para tudo

_ Doente! Doente! Doente! Doente! Incapaz! Doente! Doente! Quase doente! Doente! Distribuam as pílulas cor de rosa para os números 1, 2, 3, 4, 6, 7 e 9 e para os demais as azuis. Mande entrar o próximo grupo, Joana.
É para isso que estamos a caminhar? Uma sala, com um homem vestido de branco, a substituir deus, e a distribuir as pílulas para a felicidade de acordo com os sintomas apresentados?
_ Somos uma sociedade doente.
_ Ah, sim? Quem disse?
O homem de branco. E ele não mente. Ele disse que o meu irmão estava louco e era verdade. No começo, toda a gente estranhou. Afinal, meu irmão ainda era só um menino. Dezenove anos acabadinhos de fazer. Estava na faculdade e só tirava as melhores notas. Daí começou a ficar triste de um jeito que doía ver. Fomos procurar o homem de branco. Ele conversou com o meu irmão por sete minutos e já soube que o meu irmão estava louco. Para salvar ele da loucura receitou uma lista com pílulas para estar acordado e outras para dormir. 'Pílulas para que ele aguente a realidade'_ foi o que o homem de branco disse. Ele explicou que os loucos não são bons em agüentar a realidade. O meu irmão agüentou por dez anos, enquanto tomou as pílulas direitinho. Sempre continuou triste. Uma vez perguntei para o homem de branco:
_ por que? Por que é que ele continua tão triste, doutor?
O homem de branco nem se deu ao trabalho de me olhar nos olhos. Disse que já era tarde, ele tinha pacientes esperando. Eu tinha que ir. Eu disse que não podia partir sem ter uma resposta. O homem de branco ainda tentou me convencer a esquecer as perguntas mais difíceis. Perguntou se também eu não precisava de pílulas. Eu podia escolher, ãh. Azuis ou cor de rosa? O que ia ser. Eu insisti que só queria mesmo uma resposta, obrigada. O homem de branco suspirou decepcionado e jogou-me encima:
_ Vai ver um louco não é capaz de ser feliz.
Eu voltei para casa decidido a nunca mais escutar o homem de branco. Podia até ser que ele tivesse resposta para tudo. O problema é que ele era surdo. Atirava respostas a deus dara, do mesmo modo que atirava as pílulas cor de rosa e azuis. Pudera eu ter percebido a charlatanice do homem de branco quando o meu irmão ainda existia.