quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

o homem de branco tem resposta e pílula para tudo

_ Doente! Doente! Doente! Doente! Incapaz! Doente! Doente! Quase doente! Doente! Distribuam as pílulas cor de rosa para os números 1, 2, 3, 4, 6, 7 e 9 e para os demais as azuis. Mande entrar o próximo grupo, Joana.
É para isso que estamos a caminhar? Uma sala, com um homem vestido de branco, a substituir deus, e a distribuir as pílulas para a felicidade de acordo com os sintomas apresentados?
_ Somos uma sociedade doente.
_ Ah, sim? Quem disse?
O homem de branco. E ele não mente. Ele disse que o meu irmão estava louco e era verdade. No começo, toda a gente estranhou. Afinal, meu irmão ainda era só um menino. Dezenove anos acabadinhos de fazer. Estava na faculdade e só tirava as melhores notas. Daí começou a ficar triste de um jeito que doía ver. Fomos procurar o homem de branco. Ele conversou com o meu irmão por sete minutos e já soube que o meu irmão estava louco. Para salvar ele da loucura receitou uma lista com pílulas para estar acordado e outras para dormir. 'Pílulas para que ele aguente a realidade'_ foi o que o homem de branco disse. Ele explicou que os loucos não são bons em agüentar a realidade. O meu irmão agüentou por dez anos, enquanto tomou as pílulas direitinho. Sempre continuou triste. Uma vez perguntei para o homem de branco:
_ por que? Por que é que ele continua tão triste, doutor?
O homem de branco nem se deu ao trabalho de me olhar nos olhos. Disse que já era tarde, ele tinha pacientes esperando. Eu tinha que ir. Eu disse que não podia partir sem ter uma resposta. O homem de branco ainda tentou me convencer a esquecer as perguntas mais difíceis. Perguntou se também eu não precisava de pílulas. Eu podia escolher, ãh. Azuis ou cor de rosa? O que ia ser. Eu insisti que só queria mesmo uma resposta, obrigada. O homem de branco suspirou decepcionado e jogou-me encima:
_ Vai ver um louco não é capaz de ser feliz.
Eu voltei para casa decidido a nunca mais escutar o homem de branco. Podia até ser que ele tivesse resposta para tudo. O problema é que ele era surdo. Atirava respostas a deus dara, do mesmo modo que atirava as pílulas cor de rosa e azuis. Pudera eu ter percebido a charlatanice do homem de branco quando o meu irmão ainda existia.  

2 comentários:

  1. Caroline...
    O famoso jaleco branco que nos intimida tanto diante do médico.
    É verdade, todos nós temos um momento de loucura e acho que na verdade vem para nos fazer bem, sair do politicamente correto.
    Abraços sempre...
    Luandabela.

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    1. Oi Luandabela,
      Na minha opinião, os homens e mulheres de branco precisam cuidar do ser humano, enxergá-lo, tratá-lo e não rotulá-lo e medicá-lo sem precisão. Temos que parar de inventar loucos e depressivos as pencas. Essa invenção simplesmente enriquece a indústria farmaceutica e empobrece a humanidade, que sobra artificialmente homogênea. Todos igualmente felizes e normais...
      Às vezes tenho medo dessa sociedade onde a tristeza virou coisa proibida e falta espaço e tempo para existir em todas as estações do ser. Somos forçados a existir sempre verão, ensolarados, mesmo que a base de pílulas, para ficar acordado e para dormir.
      um abraço,
      Carol Stampone

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