quarta-feira, 30 de março de 2016

Truth (2015)

ATENÇÃO: esse post contém spoilers.

Truth (2015)
Direção e Roteiro de James Vanderbilt.
Baseado no livro de Mary Mapes.
Com Cate Blanchett, Robert Redford e Dennis Quaid.
Um filme direto e reto, baseado em fatos reais.
A história em questão é o que aconteceu com um bando de jornalistas e repórteres da CBS, quando ousaram dizer uma verdade sobre o então presidente dos EUA e candidato à reeleição, George W Bush, em 2004. 
No programa de TV '60 minutes' eles deixaram o mundo saber que George W Bush não foi à guerra do Vietnã intencionalmente, afinal, usou da influência e poder de sua família para ser liberado do serviço militar. Por conta disso, o respeitado apresentador Dan Rather e a produtora Mary Mapes tiveram suas carreiras destruídas. 
Recomendo o filme. O roteiro é muito bom e a direção tem seus momentos. Mas, o mais importante, Truth traz até nós um fantasma que é urgente enxergarmos. Por mais que seja fácil iludirmo-nos de que não, de que as coisas estão diferentes e bla e bli, ainda vivemos em um mundo que têm donos. E a frente desses soberanos quase toda a gente se curva. Uns poucos e poucas que não o fazem, acabam, quase sempre, por ser curvados, partidos, desacreditados, despedaçados, enlouquecidos até.
O roteiro de Truth é inteligente e sensível, capaz de a partir de pequenos gestos e pequenas questões, arrastar-nos a pensar sobre o real significado das  coisas. Por exemplo, já a caminho do fim do filme, somos carregados a pensar sobre os alcances e os significados da curiosidade. A personagem Dan Rather conversa com um jornalista mais novo, que fez parte do grupo que investigou as maracutais de George W Bush durante seu serviço militar. O jornalista mais novo pergunta ao jornalista famoso por que ele escolheu tal carreira. Ele responde: 'por curiosidade' 
Quando Dan Rather devolve a pergunta ao jovem, o jovem responde que por causa dele, que, de certo modo, era o herói do jornalista mais novo.
Percebam a imensidão desse diálogo. De um lado, a curiosidade, um motor em si, do outro, um herói, um exemplo, alguém a ser copiado. Essa oposição, feita com tanta singeleza, nos lembra de uma inversão cruel que habita os nossos dias. Falta-nos os nossos próprios motores e sobram modelos, heróis a serem copiados. Não se muda o mundo apenas vestindo a camiseta do Che Guevara, mas a curiosidade genuína, intrincada ao pensamento, essa sim, talvez possa  ajudar a mudar o mundo.
Tal gesto é simplesmente atirado ao espectador, sem muitas delongas. Afinal, ao fim e ao cabo, Truth é um filme pessimista. Alguns diriam que é simplesmente realista. Enfim, eu acho que é um pedaço de arte que pensa a partir do pessimismo, que, tantas vezes, dá conta de explicar o mundo.
Outro dos momentos riquíssimos do roteiro, desenvolvido com paciência  e cores pessimistas, explora um velho clichê com maestria. A relação de uma filha com seu pai violento. Não há cenas fortes de um pai a espancar a filha, nem nada disso. O que há são palavras. Palavras que inscrevem a história da violência que a menina foi vítima na história da mulher que ela se tornou. Ela faz o que faz, denuncia injustiças, escolhe contar as histórias que conta, em certa medida, para vencer aquele pai violento, abusivo.
Em uma conversa com o marido, em que a personagem Mary Mapes lembra dos tempos em que o pai a espancava, ela desabafa que ao ao menos se sentia orgulhosa do fato de nunca ter dado ao pai violento a satisfação de pedir que ele parasse de espancá-la. Aguentava a violência calada, para não aumentar a satisfação dele. Mas, chegou o momento em que ele pediu que ele parasse.
Mais tarde, quando ela passou a ser perseguida publicamente por Bush, o dono da casa, o pai dela, como bom soberano que era, juntou-se aos seus e foi à público espancar a filha com palavras de descrédito.
Dessa vez, ela não teve forças para repetir o orgulho dos tempos de menina. A cena em que a adulta Mary Mapes, lindamente interepretada por Cate Blanchett, agarra-se ao telefone, e pede chorando, como uma criança violentada, 'Daddy, please, stop" (Papai, por favor, para) dá um nó na garganta e no estômago do espectador. Essa cena tão simples e tão cuidadosamente dirigida, atira em nós, como a pedra imensa que de fato é, a crueldade dos donos do mundo. 
Enfim, os fantasmas desse filme existem para nos lembrar que o mundo ainda tem donos. E quantas vezes esses senhores do mundo são cruéis, masoquistas, cínicos, apesar da aparência de homens de bem. Aparência essa que garante-lhes o direito de mentir, manipular, agredir, e decidir o quanto querem te machucar e o quanto querem te agradar. 
Ainda vale a pena mencionar que os dois senhores em questão no filme, o então presidente do dito mundo livre, Bush e o pai da protagonista, não aparecem em muitas cenas, mas estão em todos os lados controlando a história. Acho que a semelhança com a realidade não é mera coincidência.
A verdade em questão é a de que ainda hoje há verdades e verdades. Ou seja, há verdades autorizadas pelo senhor da casa, e verdades por ele proibidas. Quem ousa escarafunchá-las e expô-las paga um preço. Nos lugares onde o coronelismo ainda vive, a conta chega a bala. Noutros, chega através do descrédito e da exclusão.
Despeço-me com questões, que são em parte provocação, em parte esperança:
de que modo a internet e todo o discurso da transparência pode mudar o mundo?
a internet pode de fato contribuir decisivamete para a extinção dos donos do mundo, ou vai acabar sendo usada apenas para substitiur os senhores do mundo?

um abraço e inté a próxima, 

segunda-feira, 28 de março de 2016

nascido e criado para ser dono do mundo

foto de Carol Stampone
arte de rua, Bergen, 2015
o menino cresceu ouvindo que era o mais bonito, o mais perfeito, o mais esperto
sempre recebeu os melhores pedaços de tudo
sempre tinha vez, para falar, para sapatear, para jogar e até para bater
aprendeu, ainda menino, que era bonito colecionar uma penca de namoradas
mais do que isso, era motivo de recompensa
afinal, depois de enumerar as namoradas, o pai sempre dava aquele riso grande e dizia orgulhoso
'esse é o meu menino, puxou ao pai'
deve ter sido por isso, que depois de um pouco crescido, quando ouviu falar das amantes do pai,
o menino achou normal, ou quase isso
é verdade que ficou chateado, no começo
não era justo com a mãe dele. era?
ela cuidava tão bem deles todos, não merecia aquilo
mas, daí o pai explicou que ele estava agindo que nem uma menininha boba. ele ainda não tinha entendido a complexidade de um homem macho?
um homem macho sabia amar com respeito e distância a escolhida para o papel de esposa, e se divertia, fazia as coisas feias, inapropriadas com as outras
ele mesmo já não tinha percebido que tinha mulher para casar e mulher para fuder?
talvez, se a mãe, a escolhida para o papel de esposa, tivesse dito algo, tivesse feito algo, o menino, ainda pouco crescido, que carregava preconceitos que ainda dava para contar nos dedos, tivesse direcionado as suas certezas para outro canto
mas, como boa esposa que era, ela ficou calada e fez de conta que não sabia
carregou a infelicidade pela casa, calada, e na rua usou direitinho o traje de esposa e mãe exemplar
o menino cresceu sem nunca precisar lavar um copo ou um prato, ou arrumar uma cama ou fazer um sanduíche
tudo  sempre feito para ele e por ele
não é de estranhar que depois de crescido ele encasquetou que é o dono do mundo
e saiu por aí passando por cima de tantas, sem pedir licença e sem dizer obrigado
ele ainda acredita que é melhor do que os outros e que carrega dentro das calças o pipi mais lindo do mundo
que pode enfiar dentro de todas as mulheres fáceis e que deve usar limpinho e só na posição papai e mamãe quando achar aquela que há de ocupar o lugar de esposa e mãe de seus futuros filhos
que ele tem certeza que vão ser machos e que vão aprender direitinho como dominar o mundo

um homem de teatro avoou



um homem de teatro
não apaga
não deixa de existir ou parte
um homem de teatro avoa
reparte-se, doa-se, mais um pouco
até mesmo depois do fim
para continuar fazendo espetáculo, dando show na memória da gente

o meu primeiro diretor avoou
foi fazer arte no além
e ai de quem
não aceitar ser por ele dirigido

ele é um homem de teatro, muito bem arresorvido
com beicinho a postos de diretor sabido
ele convence deus e o diabo da boniteza e da urgência da arte
que é verdade, incomoda, machuca
mas, também abre os poros e os olhos da gente
para a vida que vale a pena ser vivida

o meu primeiro diretor me ensinou
que uma boa dose de realismo,
doa a quem doer,
às vezes é necessária, pelo bem da arte

ele dizia que eu tinha que aprender a ser a Quitéria
e não fazer de conta que eu era ela
ele insistia que eu tinha que bater no Chico de verdade
e não fazer de conta que eu descia a mão nele

eram tempos em que eu ainda era mais ingênua e tinha pouca noção do peso da minha mão
nunca tinha ouvido falar em realismo fantástico
e sabia quase nada sobre aquela paixão recém nascida
a minha paixão pelo teatro

o diretor era pouco mais do que um estranho
mas um estranho muito familiar
no começo eu não entendi donde é que a familiaridade vinha
mas, com o tempo ela foi se desenhando para mim
a nossa proximidade era filha duma paixão comum
eramos todos amadores do teatro

as tardes naquela praça
a repetir 'Ah Chico, se eu te pego'
_e não, não tinha nada a ver com o hit do Michel Teló, que ainda ia demorar pra ser mal parido_
me fizeram mais inteira

a sofrida Quitéria, que apesar de toda a dor, era ainda matéria de comédia
me ensinou que nem sempre a gente ri porque acha graça
às vezes o riso é só um jeito de aguentar a vida

eu ainda era jovem demais
egoísta demais para saber que o teatro sabe ser casa de urgências
o meu diretor já sabia
e insistia
para que o nosso teatro bem cumprisse essa importante função
de provocar, chacoalhar, fazer rir, mas também fazer pensar

eu, repetindo, procurando, aprendendo a ser Quitéria, uma vez e mais outra
acabei encontrando a mim mesma
tentando desenhar a amarga mulher do cachaceiro
acabei enxergando tantas Quitérias que habitam as periferias do mundo

ao lado de homens, mulheres, meninos e meninas de teatro
e sob a direção do homem de teatro que avoou
eu levei a Quitéria para a rua
e ela me levou mais fundo dentro de mim

a gente abria a boca, os braços e a alma para atirar no meio da rua
mais uma história que falava de injustiças
a gente andava engraçado, tinha um sotaque cantado e gastava alguns clichês
porque o riso é um bom jeito de começar as coisas
mas no meio do caminho a gente lembrava as pessoas das injustiças que ocupam o mundo
e no fim da história o coronel tinha que aprender a ser gente
para mode a gente ter esperança de que um dia a miséria morre e nasce algum espaço pra dignidade e pra justiça

o meu primeiro diretor
tinha a mania de meter as urgências na rua, na escola, no teatro e dentro da gente
ele tinha a arrogância de deixar urgências viverem
nas bocas, nas peles e nos corações de aborrecentes, que nem fui eu

o homem de teatro, o meu primeiro diretor
mandou eu descer a mão de verdade
"Bate, pode bater que ele aguenta"
naqueles tempos, eu achei que ele falava do pobre menino, que contracenava comigo
achava que ele falava do Chico Antonio e só dele
mas era não
ele falava também da arte e da vida,
falava do nosso teatro de rua, que parecia fraquinho, desimportante, mas que encheu a minha vida de significado

"pode bater, bate de verdade, ele só parece fraquinho, mas não é"
e eu bati, desci a mão com tudo o que eu tinha
não agradei a todos,
especialmente não o rapaz que fim de semana sim e fim de semana também ficava com o lombo marcado,
mas achei um pedaço essencial de mim mesma

agradeço ao homem de teatro por ter reconhecido a minha paixão por aquilo que ele já amava fazia tempo e que continuou amando até o fim dos tempos

a gente que ama o teatro
sabe que não é fácil
fazer teatro amador
apaixonar-se pelo teatro, tanto e de tal modo, que não há alternativa
é preciso deixar que ele faça marcas, na pele, na história e no corpo da gente e dos lugares pelos quais a gente passa ou existe

esse amor também acaba marcando o nosso jeito de existir
os homens de teatro muitas vezes padecem dum excesso muito comum aos apaixonados
têm a si mesmos em valia super faturada
sentem as suas dores como se fossem as dores do mundo
também, pudera
não é fácil atirar-se à arte dos fantasmas

o meu primeiro diretor atirou-se e viveu como um homem de teatro
imperfeito e apaixonado
ele amou o teatro com tudo o que foi e o que teve
fez do teatro a sua casa
e fez da rua e da praça a casa do teatro

hoje faz quase um mês que o meu primeiro diretor avoou
de certo ele foi fazer companhia pra Alegria que dança pro sol, todas as manhãs, para convencê-lo de que ainda vale a pena oferecer mais um espetáculo para a humanidade
que é verdade, quase sempre não merece
não bate palmas, não aprecia,
mas, que ainda assim, vai continuar sendo provocada e chacoalhada e cutucada
enquanto existirem homens e mulheres de teatro.

sexta-feira, 18 de março de 2016

o adormecer e a escrita


há escritorxs que precisam adormecer, quase embernar, antes de escrever.
as horas no sofá,
           as centenas de filmes, 
                               o excesso de ficção 
                                              e a falta de realidade TÊM uma função
é o embernar que leva o escritor, que  arrasta a escritora a um outro lugar. 
um lugar de observação da vida
um lugar de criação
um lugar em que  não há necessidade de hora certa ou rotina
um lugar onde os preconceitos são adormecidos e é possível enxergar além das convenções sociais e das 'verdades' do século.

quinta-feira, 17 de março de 2016

o imigrante ilegal não tem direito a ter direitos

foto de Carol Stampone
arte de rua em Bergen, 2015

'O imigrante ilegal' é o estrangeiro que não tem direito a ter direitos. Afinal, é aquele que não tem as respostas nem os papéis certos para dar ao dono da casa. E, por conseguinte, não tem a proteção do Direito. Sem a qual, fica legalmente exposto às privações. 
Os soberanos batem a porta na cara do imigrante ilegal e o fazem com direito, afinal, os soberanos são os donos da casa, e as suas ações e decisões, por mais injustas que sejam,  estão em acordo com a lei (que existe para servir e proteger a quem?- pergunta a mosquinha atrás da minha orelha). Enfim, porque tem a lei e o direito do seu lado e ao seu serviço, o soberano pode justificar, em cima dos palanques, que só bate  a porta na cara daqueles que estão fora da legalidade, e, portanto, não cumpriram a sua parte no acordo. 
O soberano não  pergunta porque aquele que chega não cumpriu a sua parte do acordo. Talvez a vida dele tenha sido atravessada pela miséria? Talvez uma bomba caiu-lhe, literalmente, no meio da sala?Talvez o chegante vem em busca de uma chance de existir sem medo de ser assassinado, torturado, quebrado, por causa  das suas crenças? Talvez o chegante simplesmente quer uma vida melhor ou a chance de gastar-se num lugar novo? As razões do chegante importam pouco ao dono da casa. O que ele quer saber é se aquele que chega o faz legalmente ou não e ponto final.
O soberano não se dá ao trabalho de perguntar se o tal acordo é justo. Tudo o que importa ao soberano é o que está escrito na lei. E está escrito na lei que o imigrante ilegal deve ser mantido fora. Não deve ser aceito. E, caso ele chegue sem licença e sem direito, deve ser enviado de volta, deve ser metido fora, outra vez. 
Cada vez mais o outro é posto fora. Cada vez mais a lista de perguntas a que deve bem responder cresce, e, cada vez mais são menos os que têm todas as respostas exigidas. Por conseguinte, nesse mundo atravessado por uma imensa desigualdade social, sobram imigrantes sem lugar, os tais chamados 'imigrantes ilegais', os quais, são quase sempre ou vitimizados e esquecidos, ou rotulados de perigosos. 'Imigrante pobre só serve para aumentar os índices de criminalidade'. 'Imigrante despossuído, lá dos confins do juda, que chega aqui para roubar os nossos empregos, que já são poucos'. Seja qual for o caso, é sempre melhor que o estrangeiro despossuído volte à sua casa, e deixe os donos da casa em paz.
Vivemos a ilusão de que no mundo globalizado as fronteiras foram derrubadas. Não sejamos tolos. Elas continuam a existir, altas e afiadas. As fronteiras foram quebradas apenas entre alguns, e o motivo de deitá-las abaixo em nada aproxima-se da justiça ou dos direitos humanos, mas, restringe-se a economia. As fronteiras foram derrubadas para que as mercadorias circulem, para que o dinheiro circule, para que os senhores e senhoras do mundo, os possuidores, circulem. Mas, não para que os despossuídos possam ir e vir, livremente.
Os despossuídos foram 'presenteados' com muros ainda mais altos e portinholas de entrada que, cada vez mais, são feitas mais e mais estreitas. Espremidas pelas perguntas e mais perguntas que são anexadas a lista do dono da casa. As mais novas versam sempre sobre o 'é terrorista?'. 'Esse chapéu é de um terrorista?' 'Essa camisa é de um terrorista?' 'Essa vontade de uma vida melhor é terrorista?'.


um abraço e inté a próxima, 

quarta-feira, 16 de março de 2016

o que é que o escritor precisa

foto de Carol Stampone
tirada em Copenhague em 2015

Há dias em que só consigo escrever pedaços. Começos. Vomito obsessões, fantasmas, pesos, fascinações, medos, urgências nas quais esbarrei e que não tive coragem de olhar nos olhos.
Sou covarde. Uma escritora covarde.
E é defeito?
Há quem diga que é questão de sobrevivência.
Sou uma leitora atrevida e até injusta. Vivo cobrando dos autores todos que tomem partido, que não sentem encima do muro, nem do mundo, que cumpram a obrigação de usar as palavras que metem juntas para denunciar o que precisa ser visto, discutido, mudado.
Há dias em que sou habitada por uma precisão de saber terminar as coisas. São poucos os dias assim. Mas eles existem. Existem?
a precisão de acabar as coisas...
Há mesmo isso de coisa acabada?
O que é que o escritor precisa?
Disciplina? Regras?
Tem é que escrever.
Um escritor precisa escrever.

terça-feira, 15 de março de 2016

quando parei de contar solidões


uma solidão
duas solidões
três solidões
nove solidões
vinte e sete solidões

quando percebo já perdi a conta
sem a conta acho que já não tenho serventia

um estranho derruba em mim
uma velha questão de começo
por que é que eu estava ali?
eu tinha esquecido

muito ocupada
a contar solidões
enumerá-las
etiquetá-las
amontoá-las em montinhos de coisas parecidas

tinha começado pelas cores
depois tinha acrescentado o cheiro
no meio do caminho a classificação começou a ficar complicada
difícil distinguir entre as solidões amarelas e as cor de laranja
difícil distinguir as que tinham cheiro de mar das que só estavam ensopadas de lágrimas

acabei perdendo as contas, mais uma vez, de quantas solidões já tinha acumulado na vida
dessa vez decidi fazer diferente
não comecei tudo outra vez
destranquei a pele, abri os olhos, soltei os cabelos
disse até logo aos meus fantasmas todos
meti-me dentro de sapatos confortáveis e comecei a subir a montanha

no começo pareceu que eu não sabia muito bem aonde ir
ou como ir ou por que ir
de qualquer modo fui
um passo e depois outro e depois outro
quando dei por mim
tinha voltado a viver poesia
e reaprendido a fazer sol.