quinta-feira, 17 de março de 2016

o imigrante ilegal não tem direito a ter direitos

foto de Carol Stampone
arte de rua em Bergen, 2015

'O imigrante ilegal' é o estrangeiro que não tem direito a ter direitos. Afinal, é aquele que não tem as respostas nem os papéis certos para dar ao dono da casa. E, por conseguinte, não tem a proteção do Direito. Sem a qual, fica legalmente exposto às privações. 
Os soberanos batem a porta na cara do imigrante ilegal e o fazem com direito, afinal, os soberanos são os donos da casa, e as suas ações e decisões, por mais injustas que sejam,  estão em acordo com a lei (que existe para servir e proteger a quem?- pergunta a mosquinha atrás da minha orelha). Enfim, porque tem a lei e o direito do seu lado e ao seu serviço, o soberano pode justificar, em cima dos palanques, que só bate  a porta na cara daqueles que estão fora da legalidade, e, portanto, não cumpriram a sua parte no acordo. 
O soberano não  pergunta porque aquele que chega não cumpriu a sua parte do acordo. Talvez a vida dele tenha sido atravessada pela miséria? Talvez uma bomba caiu-lhe, literalmente, no meio da sala?Talvez o chegante vem em busca de uma chance de existir sem medo de ser assassinado, torturado, quebrado, por causa  das suas crenças? Talvez o chegante simplesmente quer uma vida melhor ou a chance de gastar-se num lugar novo? As razões do chegante importam pouco ao dono da casa. O que ele quer saber é se aquele que chega o faz legalmente ou não e ponto final.
O soberano não se dá ao trabalho de perguntar se o tal acordo é justo. Tudo o que importa ao soberano é o que está escrito na lei. E está escrito na lei que o imigrante ilegal deve ser mantido fora. Não deve ser aceito. E, caso ele chegue sem licença e sem direito, deve ser enviado de volta, deve ser metido fora, outra vez. 
Cada vez mais o outro é posto fora. Cada vez mais a lista de perguntas a que deve bem responder cresce, e, cada vez mais são menos os que têm todas as respostas exigidas. Por conseguinte, nesse mundo atravessado por uma imensa desigualdade social, sobram imigrantes sem lugar, os tais chamados 'imigrantes ilegais', os quais, são quase sempre ou vitimizados e esquecidos, ou rotulados de perigosos. 'Imigrante pobre só serve para aumentar os índices de criminalidade'. 'Imigrante despossuído, lá dos confins do juda, que chega aqui para roubar os nossos empregos, que já são poucos'. Seja qual for o caso, é sempre melhor que o estrangeiro despossuído volte à sua casa, e deixe os donos da casa em paz.
Vivemos a ilusão de que no mundo globalizado as fronteiras foram derrubadas. Não sejamos tolos. Elas continuam a existir, altas e afiadas. As fronteiras foram quebradas apenas entre alguns, e o motivo de deitá-las abaixo em nada aproxima-se da justiça ou dos direitos humanos, mas, restringe-se a economia. As fronteiras foram derrubadas para que as mercadorias circulem, para que o dinheiro circule, para que os senhores e senhoras do mundo, os possuidores, circulem. Mas, não para que os despossuídos possam ir e vir, livremente.
Os despossuídos foram 'presenteados' com muros ainda mais altos e portinholas de entrada que, cada vez mais, são feitas mais e mais estreitas. Espremidas pelas perguntas e mais perguntas que são anexadas a lista do dono da casa. As mais novas versam sempre sobre o 'é terrorista?'. 'Esse chapéu é de um terrorista?' 'Essa camisa é de um terrorista?' 'Essa vontade de uma vida melhor é terrorista?'.


um abraço e inté a próxima, 

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