terça-feira, 15 de março de 2016

quando parei de contar solidões


uma solidão
duas solidões
três solidões
nove solidões
vinte e sete solidões

quando percebo já perdi a conta
sem a conta acho que já não tenho serventia

um estranho derruba em mim
uma velha questão de começo
por que é que eu estava ali?
eu tinha esquecido

muito ocupada
a contar solidões
enumerá-las
etiquetá-las
amontoá-las em montinhos de coisas parecidas

tinha começado pelas cores
depois tinha acrescentado o cheiro
no meio do caminho a classificação começou a ficar complicada
difícil distinguir entre as solidões amarelas e as cor de laranja
difícil distinguir as que tinham cheiro de mar das que só estavam ensopadas de lágrimas

acabei perdendo as contas, mais uma vez, de quantas solidões já tinha acumulado na vida
dessa vez decidi fazer diferente
não comecei tudo outra vez
destranquei a pele, abri os olhos, soltei os cabelos
disse até logo aos meus fantasmas todos
meti-me dentro de sapatos confortáveis e comecei a subir a montanha

no começo pareceu que eu não sabia muito bem aonde ir
ou como ir ou por que ir
de qualquer modo fui
um passo e depois outro e depois outro
quando dei por mim
tinha voltado a viver poesia
e reaprendido a fazer sol.

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