segunda-feira, 28 de março de 2016

um homem de teatro avoou



um homem de teatro
não apaga
não deixa de existir ou parte
um homem de teatro avoa
reparte-se, doa-se, mais um pouco
até mesmo depois do fim
para continuar fazendo espetáculo, dando show na memória da gente

o meu primeiro diretor avoou
foi fazer arte no além
e ai de quem
não aceitar ser por ele dirigido

ele é um homem de teatro, muito bem arresorvido
com beicinho a postos de diretor sabido
ele convence deus e o diabo da boniteza e da urgência da arte
que é verdade, incomoda, machuca
mas, também abre os poros e os olhos da gente
para a vida que vale a pena ser vivida

o meu primeiro diretor me ensinou
que uma boa dose de realismo,
doa a quem doer,
às vezes é necessária, pelo bem da arte

ele dizia que eu tinha que aprender a ser a Quitéria
e não fazer de conta que eu era ela
ele insistia que eu tinha que bater no Chico de verdade
e não fazer de conta que eu descia a mão nele

eram tempos em que eu ainda era mais ingênua e tinha pouca noção do peso da minha mão
nunca tinha ouvido falar em realismo fantástico
e sabia quase nada sobre aquela paixão recém nascida
a minha paixão pelo teatro

o diretor era pouco mais do que um estranho
mas um estranho muito familiar
no começo eu não entendi donde é que a familiaridade vinha
mas, com o tempo ela foi se desenhando para mim
a nossa proximidade era filha duma paixão comum
eramos todos amadores do teatro

as tardes naquela praça
a repetir 'Ah Chico, se eu te pego'
_e não, não tinha nada a ver com o hit do Michel Teló, que ainda ia demorar pra ser mal parido_
me fizeram mais inteira

a sofrida Quitéria, que apesar de toda a dor, era ainda matéria de comédia
me ensinou que nem sempre a gente ri porque acha graça
às vezes o riso é só um jeito de aguentar a vida

eu ainda era jovem demais
egoísta demais para saber que o teatro sabe ser casa de urgências
o meu diretor já sabia
e insistia
para que o nosso teatro bem cumprisse essa importante função
de provocar, chacoalhar, fazer rir, mas também fazer pensar

eu, repetindo, procurando, aprendendo a ser Quitéria, uma vez e mais outra
acabei encontrando a mim mesma
tentando desenhar a amarga mulher do cachaceiro
acabei enxergando tantas Quitérias que habitam as periferias do mundo

ao lado de homens, mulheres, meninos e meninas de teatro
e sob a direção do homem de teatro que avoou
eu levei a Quitéria para a rua
e ela me levou mais fundo dentro de mim

a gente abria a boca, os braços e a alma para atirar no meio da rua
mais uma história que falava de injustiças
a gente andava engraçado, tinha um sotaque cantado e gastava alguns clichês
porque o riso é um bom jeito de começar as coisas
mas no meio do caminho a gente lembrava as pessoas das injustiças que ocupam o mundo
e no fim da história o coronel tinha que aprender a ser gente
para mode a gente ter esperança de que um dia a miséria morre e nasce algum espaço pra dignidade e pra justiça

o meu primeiro diretor
tinha a mania de meter as urgências na rua, na escola, no teatro e dentro da gente
ele tinha a arrogância de deixar urgências viverem
nas bocas, nas peles e nos corações de aborrecentes, que nem fui eu

o homem de teatro, o meu primeiro diretor
mandou eu descer a mão de verdade
"Bate, pode bater que ele aguenta"
naqueles tempos, eu achei que ele falava do pobre menino, que contracenava comigo
achava que ele falava do Chico Antonio e só dele
mas era não
ele falava também da arte e da vida,
falava do nosso teatro de rua, que parecia fraquinho, desimportante, mas que encheu a minha vida de significado

"pode bater, bate de verdade, ele só parece fraquinho, mas não é"
e eu bati, desci a mão com tudo o que eu tinha
não agradei a todos,
especialmente não o rapaz que fim de semana sim e fim de semana também ficava com o lombo marcado,
mas achei um pedaço essencial de mim mesma

agradeço ao homem de teatro por ter reconhecido a minha paixão por aquilo que ele já amava fazia tempo e que continuou amando até o fim dos tempos

a gente que ama o teatro
sabe que não é fácil
fazer teatro amador
apaixonar-se pelo teatro, tanto e de tal modo, que não há alternativa
é preciso deixar que ele faça marcas, na pele, na história e no corpo da gente e dos lugares pelos quais a gente passa ou existe

esse amor também acaba marcando o nosso jeito de existir
os homens de teatro muitas vezes padecem dum excesso muito comum aos apaixonados
têm a si mesmos em valia super faturada
sentem as suas dores como se fossem as dores do mundo
também, pudera
não é fácil atirar-se à arte dos fantasmas

o meu primeiro diretor atirou-se e viveu como um homem de teatro
imperfeito e apaixonado
ele amou o teatro com tudo o que foi e o que teve
fez do teatro a sua casa
e fez da rua e da praça a casa do teatro

hoje faz quase um mês que o meu primeiro diretor avoou
de certo ele foi fazer companhia pra Alegria que dança pro sol, todas as manhãs, para convencê-lo de que ainda vale a pena oferecer mais um espetáculo para a humanidade
que é verdade, quase sempre não merece
não bate palmas, não aprecia,
mas, que ainda assim, vai continuar sendo provocada e chacoalhada e cutucada
enquanto existirem homens e mulheres de teatro.

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