terça-feira, 26 de abril de 2016

livre por um instante



Uma vida tinha acabado. A seguinte não tinha começado. Ainda. Era aquele momento mágico, irreal até, em que a liberdade que não cabe no mundo_ só nos sonhos e nas lutas por eles movidas_ habita uma pessoa. Ela foi ocupada e dançou. 
Já não haveria mais sinhazinha para obedecer nem senhor para meter-se dentro das saias que cobriam-lhe o corpo, mas não eram dela. Nos dias por vir, ela teria nada, como sempre. Mas, pela primeira vez, ia ser dona de si mesma. 
Ela decidiu dançar a noite interinha. Dançava em volta da fogueira, os pés descalços, os olhos fechados, o corpo livre e a alma imensa. A dança era a luta dela, o jeito de afastar por um tiquinho de vida a dura verdade que ela sabia, ia alcançá-la logo. 
Ela dançou para esquecer que tinha nascido e existido coisa de outrem, por tanto tempo. Dançou para calar a dor dos estupros, das chicotadas, a dor de ver o seu menino arrancado dela e vendido como um boi. Mas, mais do que isso, dançou para afastar para amanhã uma dura verdade: valia pouco ser dona de si mesma nas margens dum mundo branco e macho.



sexta-feira, 22 de abril de 2016

a maldita


a maldita
não foi-lhe apresentada
mal entendida, mal explicada
mal colocada
jogada ali, na periferia do mundo, 
no escuro
não alcançou os corpos que habitam o centro do mundo
e sem saber porquê 
gastam existências inteiras
a repetir os velhos passos 
desenhados, ensaiados e vigiados 
pelo dito homem de bem. 

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Eu também não quero uma polícia papel higiênico!


Por conta de um comentário feito à minha crônica 'bandido bom é bandido morto?', que quem não leu pode ler aqui, acabei cruzando com um vídeo em que o ex policial militar Conte Lopes defende que sim, que bandido bom é bandido morto. 
Disse o comentador anônimo: 
"Bandido morto não rouba, não mata, não trafica, não estupra, não molesta, não aplica golpes.
https://www.youtube.com/watch?v=qm6R3-GxSQo
Tá por fora da realidade hein Carol, a década de 60 já passou minha filha, estamos em 2016 e não 1966."
Sim, de fato, estamos em 2016, no entanto, a verdade é que tem horas que é fácil ficar na dúvida. Afinal, a mesma lógica abusiva, cruel e injusta que servia à polícia dos ditadores, ainda hoje, serve à polícia que acha que tudo pode e que não tem que responder por nada.
No vídeo anexado pelo comentador anônimo, o capitão Conte Lopes aparece a reclamar que hoje a polícia não pode mais fazer o seu trabalho porque o secretário de segurança e os demais poderosos a usam como se usa papel higiênico. Ele denuncia que quando os políticos e autoridades são cobrados pelos erros da polícia, eles atiram os policiais à punição, sem pestanejar. 
São palavras do ex policial militar "(...) hoje, o policial ao contrário da minha época, tem que contratar advogado (...)  porque a polícia se usa que nem papel higiênico". Conte Lopes continua a sua argumentação reclamando do fato de que quando o policial acerta, o secretário de segurança vai até a TV posar de responsável pelos acertos do mesmo, mas, quando o policial erra ele está sozinho. Segundo ele, hoje o policial 'não tem o direito de errar' e 'não tem defesa nenhuma'. 
Confesso que quando ouvi tais palavras ri sozinha e fui por um segundo habitada por uma esperança frouxa. 
Quem sabe agora, quando os donos do mundo já não conseguem mais garantir costas quentes à todos os seus cães de guarda, quem sabe agora, os policiais não abrirão os olhos e perceberão que eles eram, nos tempos dos ditadores, e continuam sendo, nos dias de hoje, isso mesmo, o papel higiênico dos donos do mundo. Servem para limpar a sujeira deles, e estão a seviço deles e só deles. Existem para limpar a bunda dos poderosos aos quais servem. A polícia abusiva sempre foi o papel higiênico de uma minoria dominante. 
'O policial não tem o direito de errar' diz o senhor Conte Lopes. Ao que eu pergunto: e uma chacina é um erro? racismo institucionalizado é só um erro?
Quando o coronel diz que o policial não tem direito a defesa_ o que não é verdade_ é preciso perguntar: de que 'defesa' ele fala? Nos tempos dele, nos tempos em que ele era policial militar as coisas eram diferentes, ele mesmo diz. 'Policial hoje é que precisa de advogado'_ ele diz. Diz também que hoje o policial 'não tem defesa nenhuma'. Mas, espera aí, para o que é que o policial precisa de advogado se não tem direito a defesa? Um tanto contraditório, não? Contradição essa que acaba por apontar o que o ex policial militar realmente diz quando fala em 'defesa'. A 'defesa' em questão não refere-se ao direito legal de explicar-se perante a justiça, mas sim as costas quentes, sempre. Ou seja, a defesa de que ele fala é a velha garantia dada aos policiais pelos poderosos que dominam o país. A garantia de que os policiais podem abusar do micro poder que lhes foi 'dado', lambuçar-se com ele até, sem nunca ter que responder por suas ações. 
Voltando ao vídeo, que oferece tanto material para a reflexão, cito mais um trecho dito pelo tal senhor que defende que sim, que bandido bom é bandido morto: 
'o policial sem saber o que faz, sem ter apoio de ninguém e quando ele faz alguma coisa, começa a imprensa a bater na cabeça dele e ele não tem para onde correr'. 
'O policial sem saber o que faz' sim, uma vez e mais outra, tantos policiais sem saber o que fazem, porque é fato, a polícia brasileira é despreparada e precisa ser desconstruída e refeita. Já passa da hora da polícia deixar de ser um rebanho de jagunços que simplesmente obedece às ordens do senhor coronel.  
'Sem ter o apoio de ninguém', não é bem verdade. Ainda há muito 'apoio'_ leia-se por 'apoio' o aval, dado pelos poderosos que se julgam donos do mundo, aos seus cães de guarda. Os quais foram treinados para morder, arrancar pedaço e até matar, todos os bandidos, desde que despossuídos e invisíveis, é claro. A verdade é que o policial brasileiro ainda pode usar e  usa o poder de forma irresponsável. O que hoje começa a faltar, principalmente nos grandes centros do Brasil, é o apoio incondicional do 'dono da casa'. A versão moderna do coronel, manda matar, mas, não se responsabiliza pelo matador se ele deixar o corpo aparecer no centro do mundo. 
'quando ele faz alguma coisa, começa a imprensa a bater na cabeça dele'
Daí, a polícia despreparada que é também irresponsável, tem que aprender, de repente, que já não é mais do jeito que era antes, não dá pra chacinar e deixar os corpos a vista. Agora, quando os donos do mundo deixam de proteger alguns dos seus jagunços, devido a pressão da mídia e das organizações que lutam por justiça e por direitos humanos, os policiais tem que aprender a se responsabilizar pelos seus próprios atos. Mas como? 
Todo o bêabá do jagunço justiceiro não falava nadinha de responsabilidade. Muito pelo contrário. 'Os senhores do mundo é que mandaram eu limpar o mundo a bala'_ alguma coisa pensa no 'pobre' policial condenado. É que depois de tanto tempo obedecendo e repetindo, fica difícil saber pensar sozinho. O jagunço despreparado, que aprendemos a chamar de senhor policial, quando, raramente tem que responder por suas ações, não sabe o que fazer. Frente a essa nova situação ele se sente encurralado, ou nas palavras do ex policial militar '[o policial] não tem para onde correr'. 
Ora, o policial não tem que correr. Ele tem que ficar e responder por suas ações. Uma polícia que não responde pelo o que faz é abusiva e não tem lugar numa democracia de verdade. Só serve para servir coronéis, ditadores, fascistas...
Mas, então está tudo perdido? Todo policial é cão de guarda de uma minoria que mantém seu poder e seus privilégios às custas da justiça?
Talvez eu seja ingênua. Mas, a verdade é que eu fio que há pessoas que escolhem se tornar policiais porque realmente acreditam que assim estão contribuindo para a construção de um mundo melhor e mais justo. No entanto, enquanto a instituição polícia continuar atravessada pela lógica abusiva, cruel e injusta dos tempos da ditadura e da colonização, esses homens e mulheres bem intencionados serão esmagados e continuarão fazendo pouco mais do que servir de papel higiênico para os poderosos que dominam o mundo. 
Precisamos desconstruir a polícia, o sistema penintenciário e mais do que isso, precisamos, urgentemente, parar de acreditar na mentira de que a criminalidade pode ser exterminada a base de bala e tortura. A solução para a criminalidade passa pela educação e pela real distribuição de renda. Aliás, a raiz do problema é a desgualdade social e não uma suposta ruindade intríseca a bandidos que nascem tortos e hão de morrer tortos. 
É hora de dizer basta para a polícia papel higiênico! A polícia que precisamos não serve aos donos do mundo, mas, à todo o mundo. É uma polícia humana e responsável, constituída por seres humanos capazes de pensar, de agir sem discriminar, sem abusar do poder, e, consequentemente, uma polícia que não precisa correr ou se esconder ou lamentar quando chegar a hora de responder pelos seus atos. 
um  abraço e inté a próxima. 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

a esperança vai ser sempre verde


juntou as mãos, fechou os olhos, deixou que os joelhos arrastassem-na até aquela estátua antiga, rececentemente restaurada. o sol quente, o meio do dia infernal, apesar de tudo, ela não se levantou, não bebeu água, nem comeu. tinha prometido passar três dias ali, ajoelhada, rezando, implorando para que a felicidade chegasse. 
antes do começo daquela experiência masoquista, ela não tinha parado para pensar nas roupas molhadas com os restos que seu corpo foi forçado a expelir. suja, exausta e cheirando mal ela teve certeza que era a última das criaturas. apesar disso, acreditou na existência Dele, aquele que tudo sabe e tudo pode. aquele que ama e pune e recompensa. 
ela me confundia. tinha horas em que dizia que eu tinha que aceitá-lo porque ele me amava. noutras horas insistia que se eu não tivesse a inteligência de enxergá-lo eu ia pagar o preço, ia apodrecer no inferno. tinha dias em que ela dizia que esperava que ele pudesse me perdoar. todos os dias, quando eu saia de casa, ela mandava eu ir com ele. antes de dormir, ela mandava eu dormir com ele. 
noite passada eu me enfezei. disse que se ela quisesse existir na companhia dele, dia e noite, dormindo e acordada, que era problema dela. mas, para mim, aquela esperança chocha, irresponsável e burra já não servia. 
ela fez o sinal da cruz e pediu que ele me perdoasse, porque eu não sabia o que eu dizia. 
eu gritei-lhe na cara que  a esperança não era bonita. a esperança é verde e vai ser sempre para sempre verde. ela não amadurece. 
ela ainda tentou dizer que se ela não vingasse nessa vida, ia acabar vingando na outra. depois mandou eu me acalmar e dormir com ele. eu levantei-me, acendi a luz e fui embora. antes dei-me ao trabalho de deixar-lhe um poema, para terminar de desenhar aquela verdade que ela não quis escutar. 
a esperança é verde, e vai ser ser para sempre verde 
ela não amadurece não, mulher
a esperança não é a coisa boa que muita gente pensa que ela é
se a gente 'espera' é porque não pode fazer agora, comer agora, ter prazer agora, dançar agora, viver agora
a esperança e o além mundo
são só desculpas para te fazer passar fome calada
fome de corpo e de alma
cê gasta a vida cheia de esperança e existe vazia, encolhida, desempoderada, enquanto uma minoria se alimenta dos milhares que nem ocê e domina o mundo
a gente deve esperar pela morte e só 
e esperar ocupado
gastanto as horas e enchendo os dias, ocupando o mundo, com luta e dança e vida, não com reza e sofrimento e cabeça baixa. 


sábado, 9 de abril de 2016

nem pessimismo, nem otimismo

foto de Carol Stampone
arte de rua, Bergen, Noruega, 2015

"A essência da pessoa não muda, mas se deteriora"
Será?
Será que estamos nesse mundo para gastar quem somos?
Gastar-nos até o talo e daí acabar?
Mas, não nos disseram que era para ser o contrário? Estamos aqui para evoluir, para aprender, para amadurecer. Não é isso?
Disseram que era.
Eu sobrei pensando na fruta madura. O que é que acontece com ela?

Pensem na fruta madura. O que acontece depois que ela amadurece?
O que é que lhe resta?
Alguns dizem que acabar. Tudo o que lhe resta é acabar.
Outros acreditam na transformação. O apodrecer é só uma etapa do virar outra coisa.
E quantas não são as frutas maduras que são comidas.

nem pessimismo, nem otimismo

"imediato, urgente, definitivo

a vida a gente faz a cada dia"

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Outra vez o documentário '15 Filhos'

Resultado de imagem para documentario 15 filhos

Já escrevi aqui no blog sobre o urgente e afiado documentário '15 Filhos' de Maria Oliveira e Marta Nehring. Quem quiser pode conferir o post aqui
Volto a falar sobre esse documentário porque as vozes daquel@s filhos e filhas ficaram aqui dentro de mim, me lembrando que a gente não deve esquecer os estragos da ditadura. É uma obrigação nossa rever a história oficial.
Cada vez que um dos filhos e filhas abrem-se, para lembrar da infância atravessada pela ditadura, não tem como deixar de ver a dor que carregam e vão sempre carregar consigo. A dor de quem está  para sempre atravessado por uma cicatriz inapagável. A dor de quem traz na pele, na história do corpo, das memórias e do espírito a injustiça tamanha que é uma ditadura. Ditaduras quebram, calam, desumanizam e seus estragos podem atravessar gerações. 
Em 15 Filhos uma das filhas diz: "Tanto na França quanto no Chile eu tinha a minha identidade. Eu era a Marta, a filha de um guerrilheiro morto". Identidade essa, para sempre atravessada por uma cicatriz, por uma procura, por um grito inapagável. Trata-se de uma identidade rasgada. A filha confessa que tentou e ainda tenta reconstituir um pai. Conta que tentou falar com as pessoas que tinham vivido com ele. Mas, que sabe que isso não resolve. O pai foi-lhe arrancado pela ditadura. Essa violência é parte de quem ela é. Grudou-se em suas circunstâncias.
Mas, será que ao fim e ao cabo nada resolve?
Uma solução não há. Não há como ressuscitar os desaparecidos, nem como devolver os anos de vida dos presos políticos, nem como deletar as marcas das torturas de que foram vítimas. Como bem coloca uma das filhas 'o pior da tortura é que é uma dor para a vida inteira. Não tem como apagar'. Mas, há o que fazer!
Denunciar! Não calar! Reescrever a história. Pensar sobre o que ocorreu e porque ocorreu. Por fim, lutar para que a história não se repita. 
Uma das filhas atira em nós um desabafo que me atingiu em cheio: "eu achava que a sociedade me devia alguma coisa. Porque se não tivessem deixado o golpe acontecer eu não tinha sofrido isso".
A sociedade deve-lhe sim muita coisa. Pois, ao fim e ao cabo foi omissa. Deixou-se levar pela propaganda da falsa revolução. Colheu os frutos do suposto boom econômico e escolheu fechar os olhos para o golpe militar brasileiro e para as diversas ditaduras pela América do sul afora.
A filha continua: "A dor era tão grande que não tinha como eu me abrir".
Hoje, quando essa dor ainda existe, mas também resiste, hoje quando tantas testemulhas dessa atrocidade passada têm voz, para falar, para denunciar, espero (talvez ingenuamente) que a gente tenha ouvidos, pele, coração e cérebro pra ouvir. Espero que a gente escute e lute para que as injustiças e atrocidades de ontem não voltem a ocupar o mundo, jamais.



segunda-feira, 4 de abril de 2016

aprender saudades

Divido um trecho do livro no qual estou trabalhando no momento, que acho que vou acabar chamando  'O filho da mãe ou o filho da terrorista'. Comecei a trabalhar nesse projeto já faz tempo. Primeiro chamei-o de 'Quis dizer'. Já contei um pouquinho dessa história em posts anteriores.  É uma história dura. Ficção que fala de verdades. A história de um menino que teve que crescer cedo demais e que teve a sua vida atravessada por uma ditadura. Quem quiser saber mais a respeito dessa história pode conferir aqui ou aqui.
um menino começando a sumir, cedo demais, apesar disso, ele ainda tenta deixar o mundo mais habitável

Agora é hora de pensar saudades, poetar saudades, pesar saudades espiando a conversa entre o protagonista dessa história e o sabido João de deus.
"Pedi explicações mais uma vez. O João então falou assim: “é bom sentir saudades, sabia?”. Eu sabia não. Que coisa mais sem cabimento. Como é que podia ser bom uma coisa que machuca mais do que peixeira afiada, metida sem dó no bucho da gente? O João foi logo dizendo que a saudade sabia metaforsear-se. Não precisava ser peixeira afiada a vida inteira. Podia virar travesseiro, árvore, pedrinha de carregar no bolso, estrela e até flor. "
Mais tarde o João de deus explica que "é muito bom ter do que sentir saudades. A gente só tem saudade daquilo que foi bonito, especial, significativo. A gente tem saudade das primaveras da nossa vida. Saudades das pessoas que foram capazes de fazer a gente sentir como se a gente fosse um tiquinho do mundo inteiro. Saudades daqueles que dividiram entusiasmo com a gente. Saudades de alguém cujo abraço é capaz de parar o tempo. 
 O João de deus continuou falando por muito tempo. Acho que no meio do caminho ele esbarrou nas suas próprias saudades. Eu não liguei. Ele tinha sido sempre tão bom para mim, não custava nada servir de orelha para ele por uma noite e umas horas. Por fim, pelas saudades do João de deus, um tanto doídas e com pedaços a embolorar, eu entendi que uma vida plena precisa de saudades. Não tem como a gente seguir em frente carregando sempre tudo e todos com a gente. Tem coisas que tem que ficar para trás. Quando tudo o que a gente deixa para trás pode ser esquecido, assim num piscar de olhos, é sinal que alguma coisa está errada."
Daí, quando o protagonista estava quase aceitando que sentir saudades é uma coisa boa, o João de deus atirou ao chão todos os maniqueísmos. 
"_Mas a gente também tem que tomar cuidado para que a vida não seja só saudades." _ esclarece o João de deus. 
O protagonista se desespera, regride e derrama no quarto fechado as suas frustrações e dores, num grito que diz assim:
"_ Como é que pode ser bom sentir saudades? As saudades são como uma vara curta e afiada, cutucando a ferida aberta duma ausência. "
O João de deus, com paciência explica: 
 "Não é qualquer um que tem do que sentir saudades. Ter algo ou alguém para sentir saudades é um sinal de que você viveu, uma lembrança de que você existiu dentro de um outro, e que um outro achou casa em você. É como uma flor seca guardada dentro dum livro."
O João ainda lembra o protagonista que a gente não pode lutar contra a natureza das coisas. "As flores não existem para durar para sempre. Têm o tempo certo para abrirem-se, depois envelhecem e murcham. Tudo o que podemos fazer é guardar uma lembrança. Tirar uma foto. Guardar uma flor seca dentro de um livro. Mas, o mais importante é não esquecer de olhar para as flores que irão florescer na próxima primavera. Sempre haverá uma próxima primavera." 

Quem gostou ou ficou curioso com essa história em andamento pode espiar outros trechos da mesma. Basta clicar aqui ou aqui


um abraço e inté a próxima, 

sexta-feira, 1 de abril de 2016

a dor e a alegria


pessoas pequenas e grandes têm que aprender a existir com a dor
tem gente que gasta as horas todas tentando fugir de algo que não tem escapatória
a vida nesse mundo não sabe ser coisa sem lágrimas, sem sal, sem dor, sem tristeza
mas, a vida não precisa ser só escuro, aperto, falta de lugar e pequenez nos ossos

eu demorei muito para entender o que é que o poeta realmente disse quando cantou que 'a tristeza é senhora'
demorei para entender a serventia de tantos pessimistas
demorei para entender o 'it is ok' que a terapeuta repetiu tantas vezes

a tristeza é primeira nesse mundo
e pode bem ser_ as chances são grandes_ que ela há de ser a última

assim que somos arrancados do útero da outra tão próxima, gritamos,
gritamos como quem pede socorro
estamos desprotegidos, metidos num mundo cheio de tantas injustiças e monstros

tanta gente acaba gastando uma vida inteira encolhido
quebrado, despedaçado
repetindo versões menores daquele primeiro grito de socorro
sem se darem conta de que há lutas que se luta junto, mas também há aquela primeira e eterna luta de todo qual, que só pode ser travada na própria pele e escrita com as próprias mãos e passos

sim, há monstros lá fora que precisam ser combatidos por muitos
juntos
monstros que se alimentam da nossa vontade e do nosso poder
monstros que já nem precisam do escuro
eles ocupam as ruas, sobem nos palanques e apresentam-se como donos do mundo
que têm o direito de arrancar, cuspir e defecar o que bem quiserem

na luta contra tais monstros temos que dar as mãos
enlaçar os delírios, as palavras e as ações
dizer NÃO juntos em alto e bom tom
Não, suposto senhor, o mundo não te pertence!

mas, talvez, para ter voz
seja preciso antes
aprender, sozinho
a viver com aqueles outros monstengos
aqueles que vivem dentro de nós, são parte de nós mesmos
pois, só assim, vamos parar de gastar tanta energia repetindo aquele primeiro grito
socorro...

a alegria encontra espaço
quando alimentamos o corpo que ela irá habitar
e não adianta encher o corpo de Camões se o que ele quer é dançar
nem tampouco empanturrá-lo de bananas quando ele está implorando por silêncio e sol

eu sei que saber o que o corpo quer não é tarefa fácil
ainda mais numa sociedade que carrega a velha herança da Idade Média
que separou a alma do corpo
e atirou sobre o último uma pequenez e desimpotância que ainda hoje nos custa caro

mas ainda é possível
reaprender a existir inteiro
e ouvir o que o corpo quer
uma flor cor de laranja me garantiu que é

ela cantou-me um samba sem ritmo que desenhava que
apesar de toda a injustiça, dos monstros e dos monstrengos, do incerto, da pequenez egoísta que é matéria de todos nós, há sim uma chance de alegria
para o poeta ela morava no samba
para mim, habita as palavras, as histórias, a arte de inventar vidas e mundos, e, de certo modo, reinventar também a mim mesma

além!

já parou para pensar donde é que mora a tua chance de alegria? 

um abraço e inté a próxima,