sexta-feira, 1 de abril de 2016

a dor e a alegria


pessoas pequenas e grandes têm que aprender a existir com a dor
tem gente que gasta as horas todas tentando fugir de algo que não tem escapatória
a vida nesse mundo não sabe ser coisa sem lágrimas, sem sal, sem dor, sem tristeza
mas, a vida não precisa ser só escuro, aperto, falta de lugar e pequenez nos ossos

eu demorei muito para entender o que é que o poeta realmente disse quando cantou que 'a tristeza é senhora'
demorei para entender a serventia de tantos pessimistas
demorei para entender o 'it is ok' que a terapeuta repetiu tantas vezes

a tristeza é primeira nesse mundo
e pode bem ser_ as chances são grandes_ que ela há de ser a última

assim que somos arrancados do útero da outra tão próxima, gritamos,
gritamos como quem pede socorro
estamos desprotegidos, metidos num mundo cheio de tantas injustiças e monstros

tanta gente acaba gastando uma vida inteira encolhido
quebrado, despedaçado
repetindo versões menores daquele primeiro grito de socorro
sem se darem conta de que há lutas que se luta junto, mas também há aquela primeira e eterna luta de todo qual, que só pode ser travada na própria pele e escrita com as próprias mãos e passos

sim, há monstros lá fora que precisam ser combatidos por muitos
juntos
monstros que se alimentam da nossa vontade e do nosso poder
monstros que já nem precisam do escuro
eles ocupam as ruas, sobem nos palanques e apresentam-se como donos do mundo
que têm o direito de arrancar, cuspir e defecar o que bem quiserem

na luta contra tais monstros temos que dar as mãos
enlaçar os delírios, as palavras e as ações
dizer NÃO juntos em alto e bom tom
Não, suposto senhor, o mundo não te pertence!

mas, talvez, para ter voz
seja preciso antes
aprender, sozinho
a viver com aqueles outros monstengos
aqueles que vivem dentro de nós, são parte de nós mesmos
pois, só assim, vamos parar de gastar tanta energia repetindo aquele primeiro grito
socorro...

a alegria encontra espaço
quando alimentamos o corpo que ela irá habitar
e não adianta encher o corpo de Camões se o que ele quer é dançar
nem tampouco empanturrá-lo de bananas quando ele está implorando por silêncio e sol

eu sei que saber o que o corpo quer não é tarefa fácil
ainda mais numa sociedade que carrega a velha herança da Idade Média
que separou a alma do corpo
e atirou sobre o último uma pequenez e desimpotância que ainda hoje nos custa caro

mas ainda é possível
reaprender a existir inteiro
e ouvir o que o corpo quer
uma flor cor de laranja me garantiu que é

ela cantou-me um samba sem ritmo que desenhava que
apesar de toda a injustiça, dos monstros e dos monstrengos, do incerto, da pequenez egoísta que é matéria de todos nós, há sim uma chance de alegria
para o poeta ela morava no samba
para mim, habita as palavras, as histórias, a arte de inventar vidas e mundos, e, de certo modo, reinventar também a mim mesma

além!

já parou para pensar donde é que mora a tua chance de alegria? 

um abraço e inté a próxima,

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