segunda-feira, 18 de abril de 2016

a esperança vai ser sempre verde


juntou as mãos, fechou os olhos, deixou que os joelhos arrastassem-na até aquela estátua antiga, rececentemente restaurada. o sol quente, o meio do dia infernal, apesar de tudo, ela não se levantou, não bebeu água, nem comeu. tinha prometido passar três dias ali, ajoelhada, rezando, implorando para que a felicidade chegasse. 
antes do começo daquela experiência masoquista, ela não tinha parado para pensar nas roupas molhadas com os restos que seu corpo foi forçado a expelir. suja, exausta e cheirando mal ela teve certeza que era a última das criaturas. apesar disso, acreditou na existência Dele, aquele que tudo sabe e tudo pode. aquele que ama e pune e recompensa. 
ela me confundia. tinha horas em que dizia que eu tinha que aceitá-lo porque ele me amava. noutras horas insistia que se eu não tivesse a inteligência de enxergá-lo eu ia pagar o preço, ia apodrecer no inferno. tinha dias em que ela dizia que esperava que ele pudesse me perdoar. todos os dias, quando eu saia de casa, ela mandava eu ir com ele. antes de dormir, ela mandava eu dormir com ele. 
noite passada eu me enfezei. disse que se ela quisesse existir na companhia dele, dia e noite, dormindo e acordada, que era problema dela. mas, para mim, aquela esperança chocha, irresponsável e burra já não servia. 
ela fez o sinal da cruz e pediu que ele me perdoasse, porque eu não sabia o que eu dizia. 
eu gritei-lhe na cara que  a esperança não era bonita. a esperança é verde e vai ser sempre para sempre verde. ela não amadurece. 
ela ainda tentou dizer que se ela não vingasse nessa vida, ia acabar vingando na outra. depois mandou eu me acalmar e dormir com ele. eu levantei-me, acendi a luz e fui embora. antes dei-me ao trabalho de deixar-lhe um poema, para terminar de desenhar aquela verdade que ela não quis escutar. 
a esperança é verde, e vai ser ser para sempre verde 
ela não amadurece não, mulher
a esperança não é a coisa boa que muita gente pensa que ela é
se a gente 'espera' é porque não pode fazer agora, comer agora, ter prazer agora, dançar agora, viver agora
a esperança e o além mundo
são só desculpas para te fazer passar fome calada
fome de corpo e de alma
cê gasta a vida cheia de esperança e existe vazia, encolhida, desempoderada, enquanto uma minoria se alimenta dos milhares que nem ocê e domina o mundo
a gente deve esperar pela morte e só 
e esperar ocupado
gastanto as horas e enchendo os dias, ocupando o mundo, com luta e dança e vida, não com reza e sofrimento e cabeça baixa. 


2 comentários:

  1. Meu discurso costuma ser "perca tudo, menos ela, a esperança". Discurso pros outros que tento ouvir de mim. Mas, nesse momento atual da minja vida, fui muito mais eu lendo suas palavras que me ouvindo dizer as minhas. Porque eu falo de esperança, mas me contradigo ao falar do agora. E, bem, no fim das contas é o agora que mais importa. Que bom te ler, viu? Gosto muito! :)

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  2. escuto-me também no seu discurso j. artur. ao fim e ao cabo, a esperança é um trem complexo, que tem no mínimo duas faces. há aquela esperança, que acho que é a que habita o seu discurso, que é bem querer pelo por vir, abertura para acolher, para hospedar a vida e o mundo, que ainda há de chegar ou crescer, ou virar outra coisa... mas, há também aquela outra esperança, que nos aleija e imobiliza. temo que a gente ande a alimentar demasiado a esperança que serve de desculpa para não ter que fazer agora, não ter que pensar agora, não ter que ser responsável pela nossa própria vida, nem agora, nem nunca. por isso é que acabei vomitando esse conto, que insiste em dizer não ao velho 'quem espera sempre alcança'. um abraço e obrigada por visitar essa minha caótica casa de histórias. Seja bem vindo!

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