quinta-feira, 21 de abril de 2016

Eu também não quero uma polícia papel higiênico!


Por conta de um comentário feito à minha crônica 'bandido bom é bandido morto?', que quem não leu pode ler aqui, acabei cruzando com um vídeo em que o ex policial militar Conte Lopes defende que sim, que bandido bom é bandido morto. 
Disse o comentador anônimo: 
"Bandido morto não rouba, não mata, não trafica, não estupra, não molesta, não aplica golpes.
https://www.youtube.com/watch?v=qm6R3-GxSQo
Tá por fora da realidade hein Carol, a década de 60 já passou minha filha, estamos em 2016 e não 1966."
Sim, de fato, estamos em 2016, no entanto, a verdade é que tem horas que é fácil ficar na dúvida. Afinal, a mesma lógica abusiva, cruel e injusta que servia à polícia dos ditadores, ainda hoje, serve à polícia que acha que tudo pode e que não tem que responder por nada.
No vídeo anexado pelo comentador anônimo, o capitão Conte Lopes aparece a reclamar que hoje a polícia não pode mais fazer o seu trabalho porque o secretário de segurança e os demais poderosos a usam como se usa papel higiênico. Ele denuncia que quando os políticos e autoridades são cobrados pelos erros da polícia, eles atiram os policiais à punição, sem pestanejar. 
São palavras do ex policial militar "(...) hoje, o policial ao contrário da minha época, tem que contratar advogado (...)  porque a polícia se usa que nem papel higiênico". Conte Lopes continua a sua argumentação reclamando do fato de que quando o policial acerta, o secretário de segurança vai até a TV posar de responsável pelos acertos do mesmo, mas, quando o policial erra ele está sozinho. Segundo ele, hoje o policial 'não tem o direito de errar' e 'não tem defesa nenhuma'. 
Confesso que quando ouvi tais palavras ri sozinha e fui por um segundo habitada por uma esperança frouxa. 
Quem sabe agora, quando os donos do mundo já não conseguem mais garantir costas quentes à todos os seus cães de guarda, quem sabe agora, os policiais não abrirão os olhos e perceberão que eles eram, nos tempos dos ditadores, e continuam sendo, nos dias de hoje, isso mesmo, o papel higiênico dos donos do mundo. Servem para limpar a sujeira deles, e estão a seviço deles e só deles. Existem para limpar a bunda dos poderosos aos quais servem. A polícia abusiva sempre foi o papel higiênico de uma minoria dominante. 
'O policial não tem o direito de errar' diz o senhor Conte Lopes. Ao que eu pergunto: e uma chacina é um erro? racismo institucionalizado é só um erro?
Quando o coronel diz que o policial não tem direito a defesa_ o que não é verdade_ é preciso perguntar: de que 'defesa' ele fala? Nos tempos dele, nos tempos em que ele era policial militar as coisas eram diferentes, ele mesmo diz. 'Policial hoje é que precisa de advogado'_ ele diz. Diz também que hoje o policial 'não tem defesa nenhuma'. Mas, espera aí, para o que é que o policial precisa de advogado se não tem direito a defesa? Um tanto contraditório, não? Contradição essa que acaba por apontar o que o ex policial militar realmente diz quando fala em 'defesa'. A 'defesa' em questão não refere-se ao direito legal de explicar-se perante a justiça, mas sim as costas quentes, sempre. Ou seja, a defesa de que ele fala é a velha garantia dada aos policiais pelos poderosos que dominam o país. A garantia de que os policiais podem abusar do micro poder que lhes foi 'dado', lambuçar-se com ele até, sem nunca ter que responder por suas ações. 
Voltando ao vídeo, que oferece tanto material para a reflexão, cito mais um trecho dito pelo tal senhor que defende que sim, que bandido bom é bandido morto: 
'o policial sem saber o que faz, sem ter apoio de ninguém e quando ele faz alguma coisa, começa a imprensa a bater na cabeça dele e ele não tem para onde correr'. 
'O policial sem saber o que faz' sim, uma vez e mais outra, tantos policiais sem saber o que fazem, porque é fato, a polícia brasileira é despreparada e precisa ser desconstruída e refeita. Já passa da hora da polícia deixar de ser um rebanho de jagunços que simplesmente obedece às ordens do senhor coronel.  
'Sem ter o apoio de ninguém', não é bem verdade. Ainda há muito 'apoio'_ leia-se por 'apoio' o aval, dado pelos poderosos que se julgam donos do mundo, aos seus cães de guarda. Os quais foram treinados para morder, arrancar pedaço e até matar, todos os bandidos, desde que despossuídos e invisíveis, é claro. A verdade é que o policial brasileiro ainda pode usar e  usa o poder de forma irresponsável. O que hoje começa a faltar, principalmente nos grandes centros do Brasil, é o apoio incondicional do 'dono da casa'. A versão moderna do coronel, manda matar, mas, não se responsabiliza pelo matador se ele deixar o corpo aparecer no centro do mundo. 
'quando ele faz alguma coisa, começa a imprensa a bater na cabeça dele'
Daí, a polícia despreparada que é também irresponsável, tem que aprender, de repente, que já não é mais do jeito que era antes, não dá pra chacinar e deixar os corpos a vista. Agora, quando os donos do mundo deixam de proteger alguns dos seus jagunços, devido a pressão da mídia e das organizações que lutam por justiça e por direitos humanos, os policiais tem que aprender a se responsabilizar pelos seus próprios atos. Mas como? 
Todo o bêabá do jagunço justiceiro não falava nadinha de responsabilidade. Muito pelo contrário. 'Os senhores do mundo é que mandaram eu limpar o mundo a bala'_ alguma coisa pensa no 'pobre' policial condenado. É que depois de tanto tempo obedecendo e repetindo, fica difícil saber pensar sozinho. O jagunço despreparado, que aprendemos a chamar de senhor policial, quando, raramente tem que responder por suas ações, não sabe o que fazer. Frente a essa nova situação ele se sente encurralado, ou nas palavras do ex policial militar '[o policial] não tem para onde correr'. 
Ora, o policial não tem que correr. Ele tem que ficar e responder por suas ações. Uma polícia que não responde pelo o que faz é abusiva e não tem lugar numa democracia de verdade. Só serve para servir coronéis, ditadores, fascistas...
Mas, então está tudo perdido? Todo policial é cão de guarda de uma minoria que mantém seu poder e seus privilégios às custas da justiça?
Talvez eu seja ingênua. Mas, a verdade é que eu fio que há pessoas que escolhem se tornar policiais porque realmente acreditam que assim estão contribuindo para a construção de um mundo melhor e mais justo. No entanto, enquanto a instituição polícia continuar atravessada pela lógica abusiva, cruel e injusta dos tempos da ditadura e da colonização, esses homens e mulheres bem intencionados serão esmagados e continuarão fazendo pouco mais do que servir de papel higiênico para os poderosos que dominam o mundo. 
Precisamos desconstruir a polícia, o sistema penintenciário e mais do que isso, precisamos, urgentemente, parar de acreditar na mentira de que a criminalidade pode ser exterminada a base de bala e tortura. A solução para a criminalidade passa pela educação e pela real distribuição de renda. Aliás, a raiz do problema é a desgualdade social e não uma suposta ruindade intríseca a bandidos que nascem tortos e hão de morrer tortos. 
É hora de dizer basta para a polícia papel higiênico! A polícia que precisamos não serve aos donos do mundo, mas, à todo o mundo. É uma polícia humana e responsável, constituída por seres humanos capazes de pensar, de agir sem discriminar, sem abusar do poder, e, consequentemente, uma polícia que não precisa correr ou se esconder ou lamentar quando chegar a hora de responder pelos seus atos. 
um  abraço e inté a próxima. 

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