terça-feira, 26 de abril de 2016

livre por um instante



Uma vida tinha acabado. A seguinte não tinha começado. Ainda. Era aquele momento mágico, irreal até, em que a liberdade que não cabe no mundo_ só nos sonhos e nas lutas por eles movidas_ habita uma pessoa. Ela foi ocupada e dançou. 
Já não haveria mais sinhazinha para obedecer nem senhor para meter-se dentro das saias que cobriam-lhe o corpo, mas não eram dela. Nos dias por vir, ela teria nada, como sempre. Mas, pela primeira vez, ia ser dona de si mesma. 
Ela decidiu dançar a noite interinha. Dançava em volta da fogueira, os pés descalços, os olhos fechados, o corpo livre e a alma imensa. A dança era a luta dela, o jeito de afastar por um tiquinho de vida a dura verdade que ela sabia, ia alcançá-la logo. 
Ela dançou para esquecer que tinha nascido e existido coisa de outrem, por tanto tempo. Dançou para calar a dor dos estupros, das chicotadas, a dor de ver o seu menino arrancado dela e vendido como um boi. Mas, mais do que isso, dançou para afastar para amanhã uma dura verdade: valia pouco ser dona de si mesma nas margens dum mundo branco e macho.



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