segunda-feira, 9 de maio de 2016

porque ler um poema por dia


ler um poema por dia desacelera
cria espaço
acarinha o corpo
e dá-lhe voz para começar a contar o que é que que ele quer
e precisa

a poesia carrega fantasmas
que sabem verdades
que a gente acha que já não servem
que estão fora de moda
mas, que na verdade sao as únicas que servem

verdades escudo
que a gente tem que meter na frente da gente
na hora de encarar os nossos próprios monstros

a poesia
as vezes lembra-nos que a ética e a política não deviam ser coisas separadas
e que o amor e a dor tem horas que só sabem existir grudados

a poesia traz até nós o ar da montanha
e deixa que ele abra a nossa pele e vernize as palavras
e anime o pensamento

a poesia não tem preguiça de por o pensamento a dançar
não tem vergonha de convidar o coração para dançar junto
não mete o corpo no lugar de empregado
pelo contrário, convida-o também, para a dança


a poesia é como um baile em que todos os nossos pedaços são convidados a existir no mesmo salão, dando-nos a chance de existir inteiros por uns segundos.

terça-feira, 3 de maio de 2016

os verbos do fim

arte de rua, Bergen, 2016. foto de Carol Stampone.
'No começo era o verbo'. E no fim? O verbo outra vez? Mas, com qual verbo o fim começa? Foi? Teve? Queria? Devia? Amou? 
No fim sobramos como uma lembrança que habita um outro. 
Mas e se durante a vida uma pessoa só tenha sabido contar solidões?
Foi criança na hora de ser gente grande, para compensar as horas todas, em que teve que fingir que sabia o que criança nenhuma tem a obrigação de saber.
Quis um outro mundo. Gastou pedaços seus engaiolada numa bolha. Fez-se e refez-se lutando batalhas perdidas e abraçando Quixotes.
Devia demais a si mesma. Inúmeras promessas, compridas demais para haverem de ser cumpridas.
Amou, uma vez, com loucura e sem pisar no freio. Entregou-se e quebrou-se. Levaram-na para o hospital. Mas, ela que sempre considerou hospitais lugares deprimentes, arrastou-se para a casa do cachorro. Deu o último suspiro ali, sem nome.
Escreveu por desespero. Uma solidão, duas solidões, trinta e duas solidões, todas documentadas. A tentativa de sobrar dentro de um outro, mesmo que desconhecido. Mal sabia ela que a própria escrita anda moribunda.