terça-feira, 3 de maio de 2016

os verbos do fim

arte de rua, Bergen, 2016. foto de Carol Stampone.
'No começo era o verbo'. E no fim? O verbo outra vez? Mas, com qual verbo o fim começa? Foi? Teve? Queria? Devia? Amou? 
No fim sobramos como uma lembrança que habita um outro. 
Mas e se durante a vida uma pessoa só tenha sabido contar solidões?
Foi criança na hora de ser gente grande, para compensar as horas todas, em que teve que fingir que sabia o que criança nenhuma tem a obrigação de saber.
Quis um outro mundo. Gastou pedaços seus engaiolada numa bolha. Fez-se e refez-se lutando batalhas perdidas e abraçando Quixotes.
Devia demais a si mesma. Inúmeras promessas, compridas demais para haverem de ser cumpridas.
Amou, uma vez, com loucura e sem pisar no freio. Entregou-se e quebrou-se. Levaram-na para o hospital. Mas, ela que sempre considerou hospitais lugares deprimentes, arrastou-se para a casa do cachorro. Deu o último suspiro ali, sem nome.
Escreveu por desespero. Uma solidão, duas solidões, trinta e duas solidões, todas documentadas. A tentativa de sobrar dentro de um outro, mesmo que desconhecido. Mal sabia ela que a própria escrita anda moribunda. 

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