segunda-feira, 13 de junho de 2016

A morte do pai parte I: a death in the family, o bybanen e eu

A morte do pai é o título do primeiro volume da novela autobiográfica do autor norueguês Karl Ove Knausgaard, que será uma das atrações principais da FLIP 2016.

Na tradução em português 'A morte do pai'. 

Li 'A morte do pai' nas minhas idas e vindas do Bybanen em Bergen. Bybanen é uma espécie de trenzinho da cidade. O bybanen aqui de Bergen te carrega de Byparken até Lagunen, uma viagem que dura mais ou menos meia hora. Eu meto-me no bybanen quase todos os dias, para ir e voltar do trabalho. Como costumava fazer no metrô de São Paulo, na volta do trabalho_ porque na ida não conseguia nem mover os braços, de tão cheio que o 'trem' estava_ leio. Gastei as minhas últimas viagens lendo a tradução para o inglês desse livro. O título em inglês, 'A death in the family' (uma morte na família) revela bem menos que o título em português.
Permito-me divagar mais um pouco. Eu tenho uma certa obsessão pela família. As minhas histórias são repletas de pai, mãe, avó, filho e até cachorro. Achei que era uma coisa minha. Mas, quando cruzo com a opção brasileira de tradução do título, fico pensando se  não é também uma coisa cultural. Fico pensando, se nós, nascidos e criados na terra tupiniquim, não aprendemos cedo demais a evocar sempre o pai e a mãe, a vó e o cachorro, vezes demais, explicitamente. Mas, a perseguição dessa divagação ficará para outra hora. Hoje, agora, deixo as minhas obsessões conversarem com o primeiro volume da novela auto biográfica de Karl Ove Knausgaard.
Li o livro em Bergen, a saber, uma das cidades em que o autor viveu, nos seus anos de jovem estudante, aspirante a escritor. O livro viaja por algumas memórias desses tempos, mas não muitas. O protagonista dessa primeira história é o pai do autor, o morto, o fantasma que a motiva e move o escritor que a faz existir. 
Knausgaard chegou a dizer que somente depois que seu pai morreu é que ele foi realmente capaz de escrever. Como se a morte do pai tivesse libertado-o ou então deixado um vazio, um espaço que ele preencheu com a escrita. Especulações, ao fim e ao cabo. A verdade é que o próprio autor, ao escolher ou ousar escrever uma colossal novela que se alimenta de suas próprias memórias e da sua própria vida, acaba virando ele próprio uma espécie de personagem. Não é a toa que na edição do livro que li, a capa traz uma foto de rosto de Knausgaard. 

Li a famosa história numa língua do meio, uma língua que nem é a que o autor habita, o norueguês, nem a língua que me habita, o português. Li, nessa língua do meio, enquanto estava no meio do caminho, indo e vindo do trabalho.
um pedaço do tão mencionado bybanen
"No meio do caminho tinha uma pedra", como bem disse Drummond. Uma pedra que eu mesma carreguei. Meti na bolsa e carreguei comigo. O primeiro volume de 'A minha luta' foi isso: uma pedra que carreguei comigo e que só tive coragem de investigar no meio do caminho.
Esse livro, escrito numa linguagem fácil, não foi engolido de uma vez. Foi metido para dentro aos pouquinhos. Fui rabiscando-o aqui e ali. Tinha vezes que tinha que parar de ler, porque o bybanen tinha chegado na parada na qual eu tinha que descer. Noutras vezes, tive que parar de ler porque o livro tinha alcançado pedaços meus que eu ainda não dava conta de ver.
Em 'A death in the family' o autor expõe-se com tanta honestidade que acaba alcançando também os fantasmas do leitor. O autor lembra as banalidades todas que constituem uma vida, com tanta intensidade e inteireza, como se fosse proibido deixar qualquer pedacinho de fora. Esse excesso dele, unido a uma forma de dizer as coisas que é viva, bonita, provocadora e ainda assim com cheiro de vida real, acaba por alcançar o leitor. Os estragos podem ser ainda mais catástroficos quando a leitora em questão é também uma aspirante a escritora. Uma das pulgas que não deixam o autor em paz, quando ele se atira à 'minha luta', quer dizer, a luta dele, é o confronto com a sua própria mortalidade e a urgência de escrever um livro do caralho.
Na próxima terça feira volto a prosear sobre o livro primeiro da Minha luta de Karl Ove Knausgaard.

um abraço e inté a próxima,



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