sexta-feira, 12 de setembro de 2014

ninguém vive uma vida inteira e sai ileso

por Caroline Stampone

_ Está tudo quebrado de um jeito que não dá para consertar. 
E por que essa insistência em consertar? 
Por que não assumir as rachaduras? Por que não encarar que agora o jeito é existir assim.
_ assim? em pedaços, você quer dizer. 
Sim, são pedaços. Está posto. É visível. São, sim, pedaços. 
A questão é: 
pedaços de que? 
pedaços que querem ir aonde? 
pedaços que gostam do que? 
pedaços que não gostam do que?
_ são muitas questões. 
Também são muitos pedaços. E se cada pedaço se ocupar de uma questão?
Dessa vez não houve resposta. Acho que ela estava ocupada a tentar entender o alcance daquela queda, daquela quebra, daquele despedaçar. 
Sim. Tinha acontecido. O que um dia tinha sido nosso e era bonito e lustroso, os outros até invejavam, agora tinha quebrado. Nós também tínhamos quebrado um pouco com aquela queda. Por fim, ela disse:
_ Rachado. Despedaçado. Quebrado. Sim, Mas, também reconfigurado. Desconstruído. Quase que recomeçado, não?
Quase recomeçado? E tinha isso de quase um começo? E quase recomeço, tinha? 
Tudo o que pude fazer foi derrubar um lugar comum, que nesse caso serviu-me como verdade. 
_ Ninguém vive uma vida inteira e sai ileso. 
Ela concordou. Eu sabia que bem no fundo ela sentia diferente. É que estava ocupada com aquele excesso de eu, besuntado e espaçoso,  que te sussurra ao pé do ouvido que a tua dor é maior do que a dos outros, a tua perda maior que a dos outros, os pedaços que te faltam mais importantes que os que sobraram. 
O jeito era mandar aquela dorzinha passear ou então pagar o alto preço de deixar de existir um pouquinho de cada vez. Cada reclamação, cada vitimização, cada uma das lágrimas que insistiam em criar um mar pelo qual se pudesse retornar ao passado, iam comer mais um pedaço dela. No lugar iam deixar outra. Uma outra amargurada, fechada, sozinha. 
Fiquei rezando baixinho, para os santos todos que eu mesmo inventei, para que ela não se deixasse engolir pela amargura. Fiquei rezando baixinho para que ela finalmente encarasse a questão: 'você quer gastar o resto da vida a reclamar?'. Fiquei rezando baixinho para que ela pudesse honestamente responder: 'não, obrigado'. Fiquei rezando baixinho para que ela pudesse finalmente entender que ninguém vive uma vida inteira e sai ileso. 


                       

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