sexta-feira, 31 de maio de 2019

Home

Home. Casa. O que é isso de estar em casa? Quando a casa é um país, ela pode ser escolhida? Ou cada um tem que contentar-se em estar na casa em que nasceu? E o que dizer sobre escritores fora da casa primeira, escrevendo versões de um mundo que deixaram pra trás? Temos o direito de escrever a respeito de uma casa que não ocupamos com os dois pés? Essas são algumas das questões que o livrinho "Home" de Salman Rushdie abraça.
Um livro miudinho, mas cheio de provocações, ou se preferirem, sementinhas de reflexão, de certo modo relevante para todas e todos, mas especialmente para àqueles que escrevem sobre um mundo que deixaram pra trás, sem nunca serem capazes de seguir em frente sem ele.
A primeira parte do livro é um trecho  das memórias do escritor, contadas por Joseph Anton. O pedaço de vida dividido versa sobre os anos de Rushdie numa escola interna na Inglaterra, uma terra pra ele, nascido na Índia, estrangeira. O autor lembra do seu existir estrangeiro como sendo um pecado. Perdoável se não combinado com outros dois pecados, a saber, ser ruim em esportes e ser inteligente. Das dores divididas do menino, que mais tarde viria a fazer-se escritor, o que  mais me interessa é essa realização de que existir estrangeiro é percebido por muitos como uma infração, um pecado, algo errado. Aquele que é estrangeiro não pertence, não está em casa. Mas mais do que isso, está fazendo algo errado, simplesmente porque existe naquela condição.
"When he turned away from his father (...)  and plunged into his English life, the sin of foreigness was the first thing that was made plain to him. Until that point he had not thought of himself as anyone's Other" (p.1).(Quando ele separou-se de seu pai (...) e adentrou sua nova vida inglesa, o pecado de existir estrangeiro foi a primeira coisa que ele viu claramente. Até aquele momento ele nunca tinha pensado sobre si mesmo como o outro de alguém. tradução livre minha).
Existir estrangeiro é mesmo isso. Existir na pele do outro. E o outro não pertence. Tem horas que o outro não é confiável. O estrangeiro traz na ponta da língua a marca da sua falta de posse, a língua daquela casa não é sua. Hoje, assistimos tantos defenderem a importância do valor de uma dita 'identidade nacional', que continua sendo usada como desculpa para manter as portas do estado fechada para tantos e tantos que desesperadamente precisam de uma nova casa, de um novo lugar para existir. Esse não é o caso de Salman. Ele é um privilegiado e sabe disso. Ele mesmo confessa meio a uma reflexão sobre a inexistência de uma 'Inglaterra dos sonhos':
"In common with many Bombay-raised middle class children of my generation, I grew up with an intimate knowledge of, and even sense of friendship with, a certain kind of England: a dream-England(...). I wanted to come to England. I  couldn't wait. And to be fair, England has done all right by me; but I find it a little difficult to be properly grateful. I can't escape the view that my relatively easyride is not the result of a dream-England's famous sense of tolerance and fair play, but of my social class, my freaky fair skin and my 'English' English accent. Take away any of these, and the story would have been different. Because of course the dream-England is no more than a dream" (44-5). (Como muitos outras crianças de classe média da minha geração criadas em Bombay eu cresci com um intimo conhecimento e até mesmo com um senso de amizade por um certo tipo de Inglaterra:  a Inglaterra dos sonhos. (...) Eu queria vir para a Inglaterra. Eu não podia esperar. E para ser honesto a Inglaterra foi 'boa' para mim, mesmo assim eu acho difícil ser propriamente grato. Eu não posso escapar da visão de que a minha relativa ascensão não é o resultado do famoso senso de tolerância e justiça da Inglaterra dos sonhos. Mas sim resultado da minha classe social, da esquisita cor da minha pele e do meu acento inglês inglês. Tire qualquer um desses elementos e a história teria sido diferente. Porque claramente a Inglaterra dos sonhos não é mais do que um sonho. tradução livre minha).
Home também serve para nos ajudar a refletir sobre como o mundo ainda é organizado. Estados com suas fronteiras fechadas. Donos da casa com o direito de escolher quem tem o direito de entrar e quem não tem. E mais do que isso. Quais os lugares reservados para aqueles que entram. Não somos todos iguais. O estrangeiro muitas vezes é aquele que faz tal verdade visível. 
Mais do que isso. Há estrangeiros e estrangeiros. Na última história desse livinho, "The Courter A Story from Est, West" o autor fala um pouco das diferentes maneiras de existir estrangeiro. Contando a história de um breve romance entre sua babá e o porteiro do prédio onde viviam. Os protagonistas dessa história são estrangeiros despossuídos. Falta-lhes dinheiro, status social e até mesmo a capacidade de falar a língua daquela terra estranha. Por tudo que lhes falta, eles são forçados a existir sempre na periferia dessa terra que não lhes pertence e na qual não têm lugar ou voz. É por isso que Mary, a babá do menino rico, começa a sofrer do coração. Nenhum médico descobre ao certo o que ela tem. Mas ela sabe que o que causa-lhe dor são as saudades de casa. Por isso decide voltar pra India, onde vive mais muitas décadas. Alguns podem achar que esse é um final feliz. Eu não acho. Final feliz seria um em que Mary assim como qualquer outro estrangeiro, rico ou pobre, possuidor ou não de uma língua, pudesse verdadeiramente construir um lar aonde bem entendesse. 
um abraço e inté a próxima, 

quinta-feira, 23 de maio de 2019

The poor have a right to eat


photo by Carol Stampone
The poor also need to eat. We know it. However, it is easy to forget that the poor have a right to eat. That is so because we got used to the idea that charity is all that the poor get and deserve.  Many of us believe that there is nothing wrong with helping the poor through charity. We should think again. The confusion between rights and charity harms the poor. By that I do not mean that it is always bad when an individual acts in a charitable or compassionate way towards someone in need. My critique is directed to the acceptance of charity as the institutionalized correct way of dealing with extreme poverty. To deal with poverty through the help approach is wrong because it treats poor people as less humans and because it wrongly liberates states from their duties of justice. Let me tell you a story to illustrate it.
My mother was born in a poor family in Brazil. In the first seven years of her life she lived in the country side with her parents and nine other siblings. During that time life was hard, but they always had food in their plates. When she was eight years old her family moved to the city, where her and all the other members of her family got to know a whole other level of poverty. They did not have food to eat. In order to solve that, my grandma send all her kids to work for rich ‘good ladies’, which according to my grandma, were very generous to feed her kids. When I was a young child and I did not want to eat, my mother would tell me to shut up and eat all that was on my plate. It was obvious that she could not stand any rests in the plate. It was a few years after that that I would understand why. The ‘generosity’ of the rich lady that took her in, under the condition that she would work from morning until night, was to give her the rests from the plates of her sons. My mother, for almost a decade of her life, was forced to exist as someone who was only allowed to have rests. I will not develop it any further, but I can assure you, that such traumatic experience is still a relevant part of who she is today. It deeply harmed her identity, what she believes that she deserves from life and the ways that she is able to interact with others.
Of course, one could argue that what my mother was exposed to was not charity, but abuse, and that the consequences of real charity are completely different. But my mother`s situation was no exception. Many poor kids of her generation were exposed to the same conditions, and the society accepted such behavior as charity. Even when we face charity as fully well intended action that does not include any form of abuse, there is a big asymmetry between the one helping and the one receiving help. Rights are so fundamentally important because contrarily to charity rights give people a place in the world. To have a right to eat means to be in a position where one can demand food instead of begging for it. Charity, on the other hand, puts the poor in a situation similar to the one that my mother was in as a child and as a teenager. And that is the reason why we cannot approach the poverty problem as a matter of charity. Instead, we need to face this political problem as a matter of rights.
Charity, no matter how well intended, always carries the risk of putting the poor in a place where they are obliged to be grateful for what has been given to them. Many will say that gratitude is a good thing. That we all should be grateful for our lives. Even if we accept that this type of claim is true, there is a big difference in claiming that we all should be grateful in general, and in claiming that the poor have the obligation to be grateful for our charity. Gratitude in the first sense can be seen as a kind of psychological tool that has the potential to help us to enjoy life more fully, whereas the imposition of gratitude on vulnerable people has the opposite effect. This type of imposed gratitude also has the effect of marginalizing the vulnerable even further. That is of course because it interferes in the value that these people give to themselves. Imagine a poor child who hears over and over again that she should show her gratitude to that nice lady who gave her  bread, to that good man who gave her soup, or to that blessed child who gave her one of the many Easter eggs that she received as a gift… Most likely this child will interiorize the idea that her value as a human being is inferior than that of children who do not depend on the external help of ‘generous’ people to survive.
To be honest with you, I do not need to imagine it. I see my mother and all the scars that she still carries from the time that she did not have the right to eat. Ten years depending on the charity of nice ladies, who according to my grandma fed her because they have a good heart and obeyed what God says. For my mother, those nice ladies, will be forever oppressors. The resentment that that awful experience left on my mother is so deep that I think she will not ever be able to see a rich person as an equal. For her, they will be forever those who walk on earth as they owned it alone. They remain bastards privileged persons that have no clue about how hard it can be to survive in this world. Thus, to recognize that the poor have a right to eat can also be a way of start addressing resentments that the poor feel towards those who wrongly believe to or are perceived   to owe the world. That is to say, it can be a relevant step in addressing the fact that privileges are not a synonym of rights.




terça-feira, 21 de maio de 2019

a maternidade e eu

foto por Chris Lindemann


a maternidade me engoliu
inteira
desapareci
por um tempo
aos poucos, sem aviso prévio, nem data marcada, vou voltando a existir
eu e outra
irremediavelmente juntas
quiçá há casos em que uma é absorvida pelo existir mãe apenas temporariamente
meu caso é o lugar comum de tantas que vivem o mesmo que eu
dar vida à alguém é literalmente sinônimo de doar um imenso pedaço da sua vida, da sua existência, àqueles que chegam ao  mundo completamente dependentes
é besteira fazer de conta que  não
mães padecem, e nem sempre no paraíso, como diz o velho ditado
não me entendam mal, a maternidade tem sim seus belos momentos,
e eu não voltaria atrás na minha decisão de embarcar nessa aventura que é aprender a ser mãe
mas já passa da hora de parar de romantizar essa experiência e assumir que a maternidade também custa muito
há noites em que meus filhos precisam do meu sono
dias em que sapateiam na cara da minha sonhada independência
horas em que usam cada milímetro da minha energia e depois me deixam exausta, sentindo-me simplesmente uma máquina de cumprir tarefas
também há momentos de pura alegria
em que vê-los sorrir, inventar palavras ou oferecer os bracinhos pedindo um abraço têm a capacidade de parar o mundo e todos os seus males
por uns instantes tudo o  que existe é aquela dança quentinha dentro de mim
que canta baixinho que não tem nada melhor na vida do que existir para amar essess pequeninos

é, a maternidade me engoliu, mastigou-me e agora começa a me botar pra fora de novo, sem pressa
aos pouquinhos volto a pertencer ao mundo
sempre acompanhada da outra
que agora e pra sempre é irremediavelmente parte de mim
a mãe é a outra que me ocupa e que carrego comigo para todos os lados
há tantos que enxergam somente a outra
há dias em que eu enxergo só a outra
mas a verdade é que ainda sou eu, e a mãe é apenas um pedaço meu

a maternidade me engoliu
me manteve dentro por um tempo longo demais
resisti, chutei, gritei, esperneei
por fim ela me vomitou em miúdos pedaços
gosmentos, mal cheirosos, ainda assim eu
gasto os dias nessa insistente missão de conectar os pedaços de um modo que faz sentido
tem dias em que esqueço  de perguntar 'sentido  pra quem?'
e acabo na companhia de uma subserviente infeliz que quer alegrar o mundo  sem saber o próprio nome
noutros, em que lembro que a pessoa própria precisa significar em si e pra si começo tendo  chances de florescer
as vezes as coisas dão errado e acaba por ser um dia de quases
mas noutros, eu danço sem música, e encho os pulmões de entusiasmo e gosto de ser eu
um eu que agora é também mãe

um abraço e inté a próxima

ps: vou tentar aparecer com frequência, mas não faço promessas, ainda
afinal, vida de mãe é sempre cheia de incertezas...