terça-feira, 18 de agosto de 2020

Conversando com “Vozes Mulheres” de Conceição Evaristo

 

Conceição abriu-se, hospedou a poesia e gritou verdades doídas, em sussurros

Otacílio ouviu-a e ficou maior

de reprente, de supetão, surpresa boa de domingo preguiçoso

viu-se parte do espelho social

um tiquinho de nada

uma manchinha só

difícil saber se uma mulher negra estava mesmo tendo espaço e lugar pra lembrar, entender e dizer em voz alta o quanto é injusto existir num mundo que nos vê e nos marca de acordo com a cor da nossa pele

não, Otacílio não estava sonhando

chegou a vez de começar a ouvir Conceição

passou da hora de parar de fazer de conta que no Brasil a miscigenação é um sucesso

Otacílio sabe que ser preto no Brasil não é brincadeira não

talvez o que ele ainda não entenda é que ser preta é ainda mais difícil

Conceição, Djamila, Sueli e tantas outras estão abrindo a boca, a pele, os livros

seguindo o exemplo de Lélia Gonzales

elas adentram o espaço público e ousam fazer barulho

“chegou a hora do lixo falar”

o que é verdade e já não pode mais ser ignorado

a mulher negra não é aristotelicamente um corpo feito para ocupar o porão do navio, a cozinha ou a cama alheia

ela quer e merece existir em terra de possibilidades

onde possa ser mulher e negra e mais

 

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