terça-feira, 7 de outubro de 2014

cor da pele



Vê aquele tiquinho de raiva bem acima do nariz?
A desconfiança
é porque aprendi cedo que não basta ser inteligente, tenho que ser inteligente e mais um pouco, como se o mais um pouco desculpasse a cor da pele

O menino da rua de cima só me chamava de 'escurinha'. A 'escurinha' não pode jogar queimada na rua. A 'escurinha' das ancas grandes e do cabelo ruim. Quando cresceu tentou graças comigo. É que eu tinha virado a 'escurinha' que servia para brincadeira de moço.
A escurinha...

Tive uma amiga branca quando era criança. Fui a casa dela uma vez.  Só uma vez e foi o fim da nossa amizade.
É que ela tinha dito para a mãe que eu era 'morena escura'. A mãe dela quando me viu quase que caiu para trás. Mandou que eu voltasse para o meu mundo e explicou a filha, na minha frente, que ela não podia se misturar a gente da minha laia.
Demorei para entender que gente como a mãe da minha amiga preferia dizer gente da minha laia, da minha índole, do meu mundo do que gente da minha cor. Acho que era para fazer de conta que não existe racismo.

Cresci ouvindo que serviço mal feito é serviço de preto
que lugar de preto é na cozinha, na garagem
na senzala, por que não?
que música de preto é indecente
e dança de preto então nem se fala
religião de preto é pecado
candomblé, macumba e galinha morta

preto serve é para cozinhar e fumar cachimbo
tem uns que até sabem contar uns causo

sobrevivi, mesmo com as feridas todas
_ aqui não pode entrar
_ a porta da cozinha é daquele lado
_ vai fazer o que na faculdade?
_ é a faxineira, é?
feridas
feridas que cicatrizei e não esqueci
carrego as marcas
faço questão
é que as minhas marcas sabem responder a esse faz de conta perigoso
o faz de conta de que aqui não há racismo.


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