sábado, 15 de novembro de 2014

o desaparecimento do meu menino

por Caroline Stampone


O que eu não entendo é porque ele foi se meter com essa porcaria. Depois que começou a usar essas pedrinhas ele foi deixando de ser ele mesmo, aos pouquinhos foi desaparecendo com o meu menino.
Quando me perguntam o porque, eu não sei muito bem o que dizer. Nas notícias dizem que é culpa da família. "Famílias desestruturadas e ausentes" é o que eles dizem. Eu não acho que seja o nosso caso. A gente nunca teve muito, mas a gente sempre deu atenção para o nosso menino. Aqui em casa ele era o único a ganhar uma muda de roupa nova todos os anos. A gente se desdobrava em mil para comprar os livros novos e até dava um trocadinho para ele, uma vez por mês, para ele poder dar uma voltinha no domingo com os amigos. Ele dizia que o dinheiro era para comer um lanche, tomar um refrigerante. Acho que em algum momento virou dinheiro para comprar as pedrinhas do demo.
Eu desconfiei que tinha algo errado quando ele parou de me olhar nos olhos. Tive certeza quando o rádio sumiu. Ele disse que devia ser ladrão. Eu sabia que não. Desde quando ladrão entra em casa de pobre?
Fui atrás de ajuda. Uma mocinha pálida, assistente social principiante, me explicou que muitas vezes jovens são engolidos pelo craque por falta de perspectiva. Ela disse que a culpada não era eu, mas a desigualdade social. Eu não entendi tudo o que ela estava dizendo. O que eu sei é que ser pobre nunca foi motivo para virar drogado, muito menos bandido. Se era isso o que ela estava dizendo, eu não concordava.
Ela disse que tínhamos era que concordar sobre um modo de ajudar o meu menino. Concordei. Ela explicou que a primeira coisa a fazer era confrontar o meu menino. Dizer que eu sabia que ele era usuário de drogas, dizer que eu sabia que ele tinha roubado o rádio. Eu também tinha que lembrá-lo que eu o amava e daí oferecer ajuda.
Ajuda? 'Uma clínica de reabilitação', a mocinha explicou.
Eu perguntei se era muito caro. Ela respondeu que uma clínica particular não ia ser barato, mas já havia alguns espaços financiados pelo governo, que eram de graça. Ela ia preencher a papelada para pedir a internação do meu filho.
_ Internação?
Ela explicou que o processo de recuperação era longo. Quisera eu que ele tivesse tido tempo, ao menos de tentar. Mas eu agi tarde demais. 
A mocinha ofereceu-se para estar comigo quando eu fosse ter aquela conversa difícil com o meu menino. Ele já sabia que eu sabia que ele era usuário de drogas? Eu não tinha certeza. O meu menino ia saber, de certeza, mas o que tinha sido engolido pelas pedrinhas, desse eu num sabia não. 
A mocinha pálida foi a casa comigo. Meu menino num tava não, nem o outro. A mocinha teve que ir embora. Deixou um número de telefone para eu ligar, se ele aparecesse. 
Apareceu não. Passou um dia e depois outro. Eu fui até a delegacia, por desespero só, porque já sabia que policial nunca ia de dar a mínima pra filho de pobre. Só se fosse para perseguir, que nem bandido. 
Pedi a vizinhança que me ajudasse a achar o meu menino. Depois de semana e meia um menino novinho veio bater a minha porta. Disse que o 'patrão' tinha mandado me dizer que era para eu parar de fazer furdunço. O meu filho tinha deixado de existir. 
Como o povo fala mesmo da tragédia alheia eu acabei descobrindo. Tinha sido acerto de contas. Era o que toda a gente dizia. Ninguém parecia lembrar do meu menino. Toda a gente só lembrava do drogado, bandidinho, pobre coitado que jogou a vida fora por causa de porcaria. 
Jogou a vida fora? Demorei para descobrir que ele não jogou não. A tal da mocinha pálida é que estava certa. Ele e milhares de outros meninos e meninas como ele foram e são sim vítimas dessa injustiça que não tem tamanho. Desse descaso com que pobre é tratado. Sabe que até hoje a polícia não se deu ao trabalho de procurar o meu menino. Se ao menos achassem o corpo dele para eu enterrar, dizer adeus. Eles dizem que não há indícios de crime, que o meu menino deve ter ido fazer uma viagem ou fugido com a namorada, coisa de adolescente. 
No fundo eles sabem o que aconteceu. Claro que sabem. Só que tem o contrato lá com os fornecedores das pedrinhas. Não vão botar um bom negócio em risco por conta de um menino pobre. É por essas e outras que essa porcaria existe em todo o canto. E vai continuar existindo, ao menos enquanto as maiores vítimas forem os filhos de zé e marias ninguém como eu. 

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