terça-feira, 11 de novembro de 2014

o valor da gente?

por Caroline Stampone

Eu não sou ninguém, seu moço,
não tenho dinheiro no banco
não tenho sobrenome comprido
não tenho diploma pendurado na parede
não tenho lugar na sociedade nem no clube da cidade que já pertenceu aos quatrocentões e agora é coisa de novo rico
não pude pagar por uma consulta particular no médico
muito menos por  uma escola particular para o meu filho

Acreditei durante muito tempo que dinheiro não é o que define uma pessoa
só um amontoado de papel que compra coisas, certo?

Acabei por descobrir que não
não nesse sistema
não nessa cidade

dinheiro compra direitos
até mesmo o direito de sobreviver

Despossuída carreguei-o nos braços
esperei horas na fila do pronto socorro
por fim, um médico apressado e de nariz empinado apareceu
mal olhou para a gente
foi logo dizendo que não era nada grave
o que na verdade significava que não tínhamos dinheiro suficiente para comprar o direito de receber tratamento ali
eu ainda tentei insistir
disse que a febre era alta demais e que a curandeira da vila tinha dito que era coisa de ter que abrir o bucho

o doutor de sapatos lustrosos e roupa branquinha fez cara de descrença quando eu mencionei a curandeira
mas para se livrar da gente mais rápido disse que gente como eu tinha mesmo era que se agarrar as curandices
_ por que é que eu não voltava para casa e dava ao meu menino um chazinho, ãh?

fiz nada disso não
gente como eu?
gente como eu como? pobre? mal vestida? despossuída? sozinha no mundo? sem nome importante? sem direitos?

fiz o que pude
esperneei na porta do hospital que o meu menino não tinha recebido tratamento porque era pobre
apareceu uma moça bem vestida acompanhada de dois fortalhões
ela explicou a toda a gente que eu estava fora de mim, o médico tinha acabado de atender o meu menino, não era nada grave

nessas horas eu queria ter estudado
queria saber por as palavras no lugar certo
queria ter dinheiro no banco para garantir que o meu menino ia receber o tratamento que precisava

mas sabia e podia nada disso não
agarrei o meu menino com os restos de forças que tinha e voltei para o barracão.
a curandeira, mulher de bom coração, ainda tentou ajudar a estender os dias do meu menino
mas teve jeito não
deu tempo não
foi a continha do tanto de dias que dizem que deus levou para criar o mundo
nos mesmos seis dias, sem direito a dia de descanso, o meus menino minguou de vez e acabou.
eu sobrei

queria ter sobrado não
sobrar pra quê?
para dia sim e dia também ver a certeza crescer e engolir a gente em grandes bocados?
a certeza de que nesse mundo a gente num vale nada não
só se faz valer quando tem conta graúda no banco
diploma pendurado na parede
nome importante
é só a gente endinheirada e importante que realmente tem direitos
finalmente eu aprendi

pode deixar seu moço, não vou fazer escândalo nenhum não
só quero mesmo é uma ajudinha para poder enterrar o meu menino com alguma decência
eu já aprendi que eu só sou mais um ninguém.
Agradecida pela doação do caixão, seu moço.
Sim senhor, vou lembrar de votar no moço, vou lembrar.



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