sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

meu encontro com uma dúzia de "I love you"

por Caroline Stampone

"I love you"_ dito assim de uma forma matreira. Ela devia ter uns quatro anos. Queria falar comigo. Mas eu não sabia a língua dela e ela não sabia a minha. 
O pequeno foi quem iniciou o gesto amigo. Abriu a boca para redesenhar o 'não'. É que por enquanto a única palavra que sabemos identificar na língua dele é o 'não'. 
Mas ele não usa o não como a gente. Ele diz "nãonãonãonão!" quando quer dizer "gostei de você". Usa o "não não?" quando quer dizer "quer brincar comigo?". Usa o "nãaao" para dizer "fiz cocô". Usa o "não" para dizer "não" também, mas daí a entonação é outra e fica bem clarinho que ele quer dizer: "Não quero ir embora!". 
Naquela manhã ensolarada ele redesenhou nãos e convidou aquela garotinha a fazer parte das nossas vidas. 
Ela chegou toda falante, despejando em nós palavras duma língua estranha. Devolvi a ela uma estranheza embrulhada em sorrisos e braços descoordenados. Por fim, recorri ao inglês, uma língua onde nem eu nem ela habitamos, mas que por uns minutos soube ser a nossa casa impossível. 
Ela ficou curiosa. Deve ter reconhecido algumas palavras dos desenhos. Por fim, sorriu um desses sorrisos em que mostra-se mais do que os dentes e atirou-nos encima: 
"I LOVE YOU"
Nos dez minutos seguintes, uma dúzia de crianças, encantada com a brincadeira de gastar uma língua estranha, correu na nossa direção e jogou-nos encima: "I love you, I love you, I love you, I love you! I love you? I? love? you? Iloveu, i love you"
cochichado, gritado, dito em pedaços, envergonhado, sabido, ignorado
"I love you" era tudo o que eles sabiam dizer em inglês. 
Aquela dúzia de "I love you" atirada em nós, por aqueles pequenos desconhecidos, fez-nos mais leves, mais inteiros, mais próximos da compaixão. 
Aquele encontro com o "I love you" dos pequenos desconhecidos abriu-me os olhos para o fato de que há SIM muita BELEZA no mundo. 
Depois daquele encontro fiquei pronta, outra vez, para dizer SIM à vida, ao mundo, às pessoas. Reaprendi o SIM de quem luta, de quem se ocupa de lutas cotidianas. Não o sim cansado, de quem concorda para ter menos trabalho. 

um abraço e inté a próxima 


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