quarta-feira, 26 de outubro de 2016

a cor do desespero dela

Vermelho. O chão estava coberto de um vermelho vivo e quente. O corpo dela esquecido na cabeceira da mesa, repleto dos pedaços de vidro. Naquela noite ela tinha decidido fazer diferente. 
Escolheu desobeder. 
Não comeu o que meteram-lhe no prato. Apesar de saber que ela tinha a obrigação de mastigar todos os pedaços e engolir tudinho o que lhe enfiavam no prato e na vida. 
Todo o quarto, toda a casa cheirava a podre. O cheiro não vinha do peixe, que era fresco e tinha sido preparado com as últimas cebolas e com dois dentes do alho roubados do pequeno oficial. As batatas, apesar de velhas, tinham sido cozidas com precisão. A cozinheira tinha feito o milagre de encontrar rosmarinho. O vinho era bom e tinha sido larapiado do padre, que por sua vez o tinha surripiado dos bolsos dos pobres quebrados que fingia servir. As toalhas um dia tinham sido brancas. Fazia tempo que tinham passado a existir de outra cor. 
A cor da opressão. O cheiro da opressão. 
Apesar de tudo, ela era uma prisioneira. Uma prisioneira metida num vestido caro, num palácio caindo aos pedaços no meio de uma guerra. Ela tinha decidido que não ia continuar existindo para o prazer dele. Naquela noite, ao invés de comer o peixe, encheu-se com pedaços da taça cara, que deviam ter sido roubadas de uma família rica qualquer, como a sua. Antes de acabar ela perguntou-se o que mais será que os invasores roubaram daquela família de estranhos?
Lembrou daquela noite terrível. Os invasores chegaram. Arrancaram as roupas das mulheres todas e forçaram-nas a aceitar seus membros. Estupraram todas. As novas e as velhas. Não houve lágrimas, gritos, súplicas ou rezas que os fizessem parar. Fizeram os homens assistir. Depois cortaram-lhe as cabeças. Algumas das mulheres foram mortas também. Muitas viraram escravas. Lavar, cozinhar, passar, servir de objeto sexual.
Ela tinha caído no gosto do chefe. Virou a bonequinha dele. Presa naquela casa que um dia tinha sido sua. Ele dizia que era paciente e que ia saber esperar o dia em que ela soubesse querê-lo bem. Ela decidiu acabar antes. Não ia correr o risco de deixar o cansaço matá-la de vez. 
Quando ele voltou pra casa encontrou apenas um corpo frio e azul, da cor do desespero dela.

Nenhum comentário:

Postar um comentário