quinta-feira, 2 de julho de 2020

"ostra feliz não faz pérola": conversando com Rubem Alves



“Ostra feliz não faz pérola” (Rubem Alves)
um outro eu, mais jovem
obcecado com o fogo e com a escuridão
teria abraçado essa provocação como seu mantra
mas hoje essa verdade não me serve
ao menos não sem porquês e descontrução
vamos a todos os seus pedaços então

no começo uma ostra
Rubem está a falar de ostras que criam
ostras são fechadas
ensimesmadas
existem no fundo do mar
escondidas
separadas?

eu hoje tenho forças pra admitir que é mentira
eu não quero existir ostra
escolho ser do mundo
quero criar no mundo e para o mundo
e pra fazer isso tenho que aprender a conversar com mais alguém além de mim mesma

Rubem questiona se ostras felizes são capazes de criar pérolas
hora de abraçar a velha pergunta então
o que é a felicidade?
um estado temporário
desconfio eu
imagino que sim
Rubem está certo
provavelmente na hora exata
em que a felicidade toma conta da vida da ostra ela não cria pérolas
nem nada
afinal está ocupada demais sendo feliz

Rubem continua
“pessoas felizes não sentem a necessidade de criar”
criação é questão de necessidade então?
coincide com a minha experiência, sim senhor
sinto um comichão que me me manda agarrar o caderno ou o computador e insiste que é preciso lembrar
a minha existência desbota sem o ato de escrever
sem a escrita
eu minguo
diminuo

mas quiçá Rubem está falando de outra coisa
ele insiste
“O ato criador, seja na ciência ou na arte surge sempre de uma dor”
qual dor?
será a dor de existir?
ele explica
“não é preciso que seja uma dor doída.
por vezes essa dor aparece como aquela coceira que tem o nome de curiosidade”
o que me faz pensar que sim
é a dor de existir que nos move à criação

Por fim Rubem confessa
“este livro está cheio de areias pontuadas que me machucaram e para me livrar da dor, escrevi”
Também eu “para me livrar da dor, escrevi”
no passado meti-me no lugar da ostra e vomitei minhas dores
enquanto mantinha-me fechada
hoje também de algum modo escrevo para me livrar da dor
o que distingue o eu que escreve hoje do eu que escrevia vinte anos atrás
são os lugares a partir dos quais falamos

muitos dos meus textos do passado
paridos por minha versão ostra
separada do mundo
só sabem falar com o meu próprio umbigo
sofrem de uma incapacidade aguda de ser do mundo
são muito cheios de si e de mim

para me livrar da dor, escrevi
O meu eu de dezessete anos e o eu de hoje
ambos escrevem por essa mesma razão
para me livrar da dor
a diferença entre eles é que o eu de hoje já não quer ser ostra
talvez haja gênios capazes de existir isolados, separados do mundo e ainda assim criar algo do e para o mundo
esse nao é o meu caso
aprendi que preciso estar com os outros e no mundo para criar

antes de dormir
continuo a rezar às deusas do caos
mas já não imploro-lhes para que me guiem na construção de textos pérolas
peço para que abram a mim e a minha arte para que ambas possamos alcançar mais do que eu mesma 

um abraço e inté a próxima

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