uma vidinha 'melhor' do que as outras

arte de rua, Paris, dezembro de 2014. foto de Carol Stampone

Era para ser só mais um fim de tarde igual a todos os outros. Mas, daí, sem aviso prévio, desculpas ou licenças ela explodiu. 
Todas as tardes, assim que chegava do trabalho, ele sentava-se na sua poltrona, aquela bem no meio da sala, proibida para todos os outros. A Preciosa. Ele chamava a poltrona de Preciosa. Chegava em casa, dizia 'finalmente em casa, meu amor, agora eu sou todo seu, Preciosa'. Arrancava os sapatos e gritava: 'mulher, traz a janta e uma gelada'. Durante anos a mulher tinha obedecido calada. Sabia que ele só sabia dar carinho para a Preciosa. Aceitava. Ao fim e ao cabo ele não era um homem ruim. Pagava as contas, não deixava faltar comida na mesa. Ele tinha o direito de oferecer-lhe indiferença. Não tinha? O que era a indiferença se comparada aos ossos quebrados e a cara roxa da vizinha?
A mulher ia aguentando a própria vida graças à comparação. Se fosse adepta do facebook, onde as pessoas constroem e ocupam vidas de faz de conta, era capaz de ela ter desistido. Mas, ali, naquele mundinho pequeno, ela comparava o homem dela com os homens da vizinhança. Era verdade, o seu homem já não lhe dava atenção fazia muito tempo. Dirigia-lhe a palavra para mandar. Mandar trazer a comida, a cerveja, a camisa passada, mandar ir no banco pagar a conta de luz, mandar ir na lotérica fazer a aposta da semana, mandar fazer aquele prato especial para o almoço de domingo. Se ela cortava o cabelo ele não reparava. Se emagrecia ele não via. Se ela tentava puxar um assunto ele respondia 'hamham' se estava de bom humor, ou então respondia silêncio e cara de paisagem, se estivesse no humor habitual. Indiferença era tudo o que ele tinha para lhe dar. Uma indiferença pacífica. Ela não reclamava porque naquele pequeno mundo indiferença pacífica parecia ser artigo de luxo. 
O marido da Eulália, a vizinha do 31, por exemplo, espancava ela e as crianças quase todos os dias. O Juvenal, que no começo parecia um homem bom e direito, desandou a jogar e perdeu até as calças. A mulher do Juvenal teve que começar a fazer faxina pra fora para botar o de comer na mesa e ainda acabou tendo que aguentar as bebedeiras do marido, que virou um caquinho de gente. A vizinha quietinha do 33, coitada. Não fala de medo. O marido é um ciumento possessivo que não lhe dá um minuto de sossego. Escolhe o que ela veste e não deixa ela botar as caras na rua desacompanhada. 
A mulher pensava nas vidas desgraçadas de suas vizinhas e sentia-se abençoada. A vida dela não era tão ruim.  Ela podia decorar a casa como quisesse, desde que não tirasse a Preciosa do lugar. Tinha que arrumar a casa, cozinhar, passar, lavar, ir na feira, no supermercado, na padaria, na casa lotérica e depois disso tudo ainda sobrava tempo para cuidar de si mesma. Não que ela tivesse vontade de cuidar de si mesma. Cuidar de si mesma para quê? Estava tão acostumada a existir invisível pela casa. Gente invisível não precisa de roupa bonita, assunto, cabelo arrumado, entusiasmo, quereres. 
Naquele finzinho de tarde quando ele gritou, como sempre, 'mulher, traz a janta e uma gelada', ela não se moveu. Continuou parada, na frente do fogão. O bife mal frito, do jeitinho que ele gostava, a encarar-lhe. Ela achou que ele tinha rido na cara dela e depois falado com ela. 
_ Sou eu ou é você o pedaço de carne morta? 
Ela sentiu raiva. Uma raiva enorme, que não sabia caber dentro dela. Uma raiva que doeu, primeiro. Pareceu rasgar-lhe o bucho em muitos pedaços. Pedaços imensos, que foram ocupando cada canto da cozinha, depois do corredor, do quarto de dormir, do banheiro. Ela ainda estava tentanto impedir que eles chegassem à sala. Afinal, eram pedaços barulhentos e mal educados. Nunca tinham sequer tomado um banho. Não iam saber respeitar ele e toda aquela indiferença pacífica. Não iam respeitar nem a Preciosa. Ela estava fazendo o seu melhor para impedir que os pedaços do seu bucho se espalhassem pela sala, quando ele gritou outra vez:  'mulher, traz a janta e uma gelada'. A raiva tomou conta dela. Os pedaços do bucho ocuparam a sala, sujaram a Preciosa, fizeram piada da tv, jogaram os sapatos dele na rua e disseram bem alto tudo o que ela estava fingindo não ver, atrás dos óculos da comparação.
Quando ela se acalmou, por fim, percebeu que ela estava só. Uma solidão diferente daquela a que ela estava habituada. Ela não estava só porque ele a tratava como invisível. Ela tinha escolhido estar só. As roupas dele já não estavam no guarda-roupa. A Preciosa já não reinava soberana no meio da sala. Ela ainda estava um pouco tonta. Não tinha certeza de tudo o que tinha dito. Mas pela primeira vez em muito tempo sentiu-se viva. Teve vontade de aprender a querer outra vez. Era verdade que ela não sabia muito bem por onde começar, mas ao menos agora havia espaço. Espaço para existir, para respirar, para olhar-se no espelho e dizer pensamentos em voz alta. Espaço para descobrir outra vez quem ela era. 
É que naquela tarde, ao invés de repetir mais um dia cumprindo o ingrato papel da esposa invisível, ela percebeu que não é porque parecia haver vidas ainda mais vazias do que a dela, que fazia sentido gastar-se numa vida pequena. 
Naquela tarde ela percebeu, enquanto encarava aquele bife mal passado, que a  indiferença pacífica não é um mal menor. A indiferença pacífica também sabe quebrar pessoas. Ela sabe quebrar o entusiasmo, o espírito e o tesão na vida. Sabe quebrá-los de um jeito que a pessoa sobra como um punhado de carne capaz de cumprir funções e só. 
A mulher parou de comparar-se aos outros, saiu de casa e foi expandir o seu mundo. Na vizinhança ninguém nunca mais soube ao certo o que aconteceu com ela. Tem quem diga que enquanto ela tentava grudar os seus pedaços, acabou metendo um punhado do intestino no cérebro e por conta disso, nunca mais conseguiu parar de falar e fazer bosta. Eu particularmente acho que essa conversa é coisa de quem não tem outra ocupação na vida a não ser comparar-se aos outros.  A velha história de acreditar que a sua vidinha de merda é menos pior do que a do vizinho, sabe? 
Por falar em vizinho, o Juvenal me contou que o marido da mulher dessa história arrumou outra mulher, muito parecida com a primeira, e obediente que é uma beleza. Com essa aí parece que ele nem precisa abrir a boca para dar as ordens. Ela sabe interpretar o levantamento de sobrancelhas dele que é uma beleza. Foi o que o Juvenal me disse, cheio de inveja e pequenez. Foi aí que eu percebi que essa mania de comparar a nossa vida às dos outros é um diacho que só serve para a expansão da miséria humana, estejamos nós grudados a cabeça ou aos pés do monstrinho chamado comparação.
Desapega sô!
um abraço e inté a próxima, 

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