Cartas para minha avó de Djamila Ribeiro



Quem tem o direito de tomar espaço pra dizer quem é? 

Ouço “this is a man’s world” (esse é um mundo de homens) no fundo enquanto escrevo sobre esse livro, que terminei de ler faz uns dias. Mais de uns dias agora. Dois meses ou mais. Na correria da vida há pouco tempo pra digerir o que consumimos. 

Retornando à Cartas para minha avó de Djamila. 

Estaria mentindo se dissesse que li tal narrativa sem incômodo. Vi-me incomodada diversas vezes. Quando tento entender de onde vem essa sensação de desconforto esbarro na história vendida a mim e a tantes outres sobre quais histórias valem a pena ser contadas e quem tem o direito de aparecer.  Mais do que isso, quem tem o direito de falar sobre o que. 

Djamila Ribeiro, para alguns, a filósofa pop que fala de feminismo e racismo, tem constantemente insistido no seu direito de ser humano. Na sua coluna em um jornal de grande circulação ela escreve sobre diversos temas, não limita-se a falar sobre os tópicos pelos quais ficou conhecida. Além do mais, ela foi capa de revista algumas vezes e constantemente posta fotos suas em suas redes sociais, como uma mulher bonita que tem o direito de fazer parte do espelho social de sua sociedade e do mundo. Enfim, ela é uma mulher negra, intelectual, ativista, que insiste na importância de poder ser tudo o que é, sem ficar presa no quadrado “intelectual negra”. 

Ao mesmo tempo, o conceito “lugar de fala” está no centro de seu trabalho. Ela insiste que a postura ética que precisamos pra viver nesse mundo juntes passa pelo reconhecimento de que todes e cada um de nós existe em um especifico social locus, o qual interfere enormemente no que somos capaz de ouvir e expressar. 

Na série de cartas direcionadas à sua avó materna Antônia, Djamila expressa quem é e como tornou-se ela mesma. São de certo modo cartas de amor e agradecimento àquelas que vieram antes dela, e ajudaram-na a quebrar um ciclo de injustiças que subjuga mulheres negras, como sua avó e sua mãe. São também um testemunho de injustiças ainda presentes no esqueleto da sociedade brasileira. A mulher negra presa a um casamento infeliz por ver-se sem saída. A mulher negra que tem a obrigação de ser forte, e que não é jamais vista como frágil. A mulher negra que é questionada pelo namorado possessivo, também negro, por não saber apreciar o ‘amor’ que ele derrama sobre ela. Mulheres negras reaprendendo a viver espiritualidade, apesar de todos os taboos e preconceitos que a sociedade brasileira derrama sobre religiões afro-descendentes. Algumas das injustiças impostas sobre mulheres negras são de algum modo também derramadas sobre mulheres não negras. Outras são mais ou menos divididas com homens negros. O que Cartas à minha avó deixa claro é o quanto mulheres negras são repetidamente vítimas de preconceitos e abusos. Elsa Soares cantando nos lembra que “a carne mais barata do mercado é a carne negra”. Djamila, escrevendo cartas pra sua avó, não nos deixa esquecer que mulheres negras são ainda vistas e tratadas como os seres humanos com menos valor na sociedade brasileira.

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