quarta-feira, 27 de agosto de 2014

amor fora de tempo

Ela me disse que o começo do amor é como fruta madura ainda no pé, esperando para ser colhida. 
_Também o amor, quando acontece, tem hora certa para ser arrancado da vida, engolido, saboreado ou só comido. Se demoramos demais ou se nos afobamos com ele a coisa desanda. O tarde demais deixa o amor pendurado, sozinho. Resta-lhe o mesmo fim da fruta madura que ninguém comeu. Apodrecer e cair.
Foi o que ela disse. Eu fiquei pensando se era mesmo o caso. Ela sempre teve essa mania de fazer de conta que tinha as respostas todas. Mas se olhássemos mais de perto, era fácil perceber que não passava de uma menina assim assado, um pouco assustada, um tanto avoada e obcecada com a necessidade de engolir a vida em grandes bocados.
Mas essa não é uma história sobre ela. É simplesmente a história de uma das verdades passageiras dela. Essa é uma história sobre o amor e o tempo. Ou se preferirem o idioma dela, uma história dum amor fora de tempo. 

Eu particularmente acho que o amor é mais do que uma fruta madura que só é bom se colhido na época certa. Não é que eu ache que a gente deva meter a técnica a trabalhar para amadurecer o amor em tempo recorde, como fazem com as bananas e papaias que enviam para a Europa. Não é isso. Acho apenas que essa história de hora certa para comer o amor é coisa de menina ansiosa. Aliás, o amor é mais do que isso. A vida é tão mais do que isso.
Só para começar a conversa. Já pararam para pensar que de certeza o ponto ideal de um não é o de todos? O abacate por exemplo, tem gente que gosta mais durinho e tem quem prefira quando está mesmo a um tiquinho de nada de cair do pé. O que eu estou tentando dizer é que o começo de um pode ser o tarde demais ou o cedo demais do outro.
Ela não concordou. Disse que eu estava a fugir do essencial. Ela sempre gostou de dizer que eu estava a fugir de qualquer coisa. Dela, de mim, da vida, da conversa, do trabalho. Mas quase sempre eu estava simplesmente a olhar para o outro lado. O que ela nunca foi capaz de notar. 
Mas, outra vez, essa não é uma história sobre ela. Essa é uma reflexão sobre o amor. Tem o amor hora certa para ser vivido? Vá lá, façamos de conta que há mesmo isso dum certo madurar do amor, duma hora certa para o amor ser embuchado. Nesse cenário, o que acontece se não abrimos a pele e os poros todos para viver o amor quando é hora?  Se não colhemos o fruto maduro na hora certa, tudo o que lhe resta é apodrecer?
Primeiro achei que sim. Depois mudei de ideia. "Coisa de mulher"_ disse um sexista. Euzinha sei que é simplesmente coisa de quem não vive agarrada a obrigação da coerência.
Quando as minhas ideias mudaram de rumo estava a pensar num amor não realizado. Um amor que ninguém comeu. Um amor com o qual ninguém se lambuzou. Um amor que passou do ponto e caiu da árvore. Olhei bem de perto para esse amor maduro demais e não encontrei moribundo algum.
Não deparei-me com o fim duma história que mal teve começo. O que vi foram restos de uma outra viagem. Uma outra viagem do amor. 
Sim, ela estava pronta. Eu não. A fruta não era coisa de ser colhida por uma só. Deixamo-la na árvore. Ela madurou tudo o que pode. Deu-se o caso que nenhum passarinho a comeu. Acabou por cair. Despencou-se no chão fofo. Choveu, fez sol, choveu outra vez, ventou, sol, chuva, passos de gente e de bicho. A fruta que um dia foi madura e noutro apodrecida, misturou-se a terra. Foi um tiquinho da vida de outra beleza. 
Gosto de imaginar que o nosso amor que caiu do pé foi parte da vida dessas flores amarelas, que vão durar uma primavera inteirinha e depois vão virar ausência, nas minhas lembranças. 
por Caroline Stampone


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