sexta-feira, 1 de agosto de 2014

uma distância

por Caroline Stampone
Há uma distância entre mim e mim mesmo. A terapista insiste em chamar de caverna, uma caverninha que mora dentro de mim. Eu não gosto dessa imagem. Nem da terapista. Acho que ela só repete o que deixaram escrito nos livros que defendem que as pessoas podem caber em gavetas.
A distância entre mim e mim mesmo é verdadeira. Mas há uma imagem muito mais inteira, uma imagem muito mais honesta para explicá-la.
É como se um pedaço de mim vivesse naquele barquinho, aquele mesmo que eu posso enxergar ali na frente. Um barquinho que sempre navega no meu horizonte, mas que eu nunca alcanço.
No fundo eu sei que o que eu preciso é conversar com esse meu medo de me atirar a vida. Aprender a nadar, sem pressa. Pedir ajuda e chegar ao barquinho. Apertar a mão do pedaço de mim que vive ali dentro e daí é só seguir em frente.
O barquinho não é muito grande por razão de precisão. É que não me deixa espaço para viver de passado, nem de futuro. No barquinho eu tenho que existir agora, carregando só mesmo o que gruda-se a minha mala.
Eu não sei muito coisa, mas desconfio seriamente que há muitos barquinhos lá fora, a espera de gente que assim como eu, deixou essa distância se impor em suas vidas.
Uma distância que se impõe miudinha, a gente quase nem a nota. Mas, que vai crescendo, ganhando pernas. Quando a gente percebe ela sabe correr mais rápido do que a gente. Ganhou braços compridos, capaz de agarrar os nossos sonhos e atirá-los para bem longe, antes que a gente tenha a chance de tentar grudá-los a nossa vida.
É essa distância que gruda a minha bunda no sofá, todos os dias depois do trabalho. É essa distância que sussurra ao meu ouvido 'deixa para lá aquele curso novo, você já sabe o suficiente'. É essa distância que me convence a esquecer aquela viagem, porque está tudo ok aqui. É essa distância que me ilude de que ok é suficiente, de que cômodo é suficiente, morno é a temperatura certa, encima do muro não tem problema.
É essa distância que me faz morrer mais rápido. Porque ela impõe um desencontro entre quem sou e quem quero ser. Ela bombardeia a minha capacidade de desejar, de querer, de sonhar. Daí me ilude que sobreviver e viver dá no mesmo.
Mas, dá não. Quem vive tem olhos mais brilhantes, verdades mais inteiras, feridas mais doídas, comida mais saborosa, amigos mais próximos, corpo mais sabido, alma mais tranquila, medos menos acomodados e até mesmo trilha sonora mais divertida.


Um comentário:

  1. Para refletir.
    (...)"A distância entre mim e mim mesmo é verdadeira. Mas há uma imagem muito mais inteira, uma imagem muito mais honesta para explicá-la.
    É como se um pedaço de mim vivesse naquele barquinho, aquele mesmo que eu posso enxergar ali na frente. Um barquinho que sempre navega no meu horizonte, mas que eu nunca alcanço."(...)
    Parabéns pelo seu texto.

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