segunda-feira, 14 de setembro de 2015

e Tibério diz não ser racista...

Em Incidente em Antares Érico Veríssimo além de denunciar o paternalismo, o coronelismo e a ditadura, também encontra modo de explicar o lugar que o racismo ocupa na sociedade brasileira. Lugar enraizado e cultivado, apesar de negado. 

"Racista eu? Ora, não sejas bobo. Sabes como trato a minha negrada. Eles me adoram. Mamei nos peitos duma negra-mina. Me criei no meio de moleques pretos retintos. Quando leio esses casos de ódio racial nos Estados Unidos, comento a coisa com a Lanja e lhe digo que no Brasil, graças a deus, não tem esses problemas, pois aqui o negro conhece o seu lugar" (Tibério Vacariano em Incidente em Antares). 

Muita gente nega. Diz que racismo é coisa inexistente no Brasil. Afinal, trata-se de um país marcado pela presença de gente vinda de todo o lado. A terra da mistura, da miscigenação. 
É verdade. Gente de muitos cantos migrou para o Brasil. Italianos, japoneses, espanhóis, portugueses, estado-unidenses, libaneses, dentre tantos outros. Alguns vieram porque quiseram. Outros porque tiveram. Fugir da guerra, da pobreza, da fome. Pagar por um crime. 
E no fundo, bem no fundo de todas essas histórias de migrantes estão os negros que foram arrancados a força da África para serem escravos. Não dá para fazer de conta que a escravidão não existiu. 
_ Mas, veja bem, não chegaremos a lugar nenhum com os pés fincados no passado. Isso já aconteceu. Foi uma fase no mundo inteiro. E olha que a escravatura no Brasil foi das melhorzinhas. 
Foi? E existe isso de escravidão melhorzinha? Dizem isso porque aqui os senhores tinham filhos com as suas negrinhas? Provavelmente... 
A velha ficção de que transar com uma negrinha te faz menos racista... 
Enfim, o fato é que o lugar do negro no Brasil ainda é o de força de trabalho explorada. Mal paga, com acesso a educação de má qualidade. Enfim, ainda a margem e sem acesso à casa grande.
_ Isso são despautérios. Essa coisa de senzala e casa grande já não existe faz muito tempo... 
Não existe mesmo ou só mudou de nome? 
É verdade que o preconceito não estende-se apenas ao negro. É uma espécie de aversão ao  pobre. Mas, não esqueçamos que parte significativa da população pobre brasileira é negra. Além disso, por mais que não seja fácil ser pobre no Brasil é ainda mais difícil ser pobre e negro. 
_ A menina está dizendo bobagens. O Brasil é a terra das oportunidades. Quem trabalha duro tem a chance de fazer-se alguém na vida. Hoje em dia já existe negro rico. E tem até aquele pretinho lá dos Estados Unidos que virou presidente. A coisa tá boa pra negada.
A coisa tá boa pra negada? Aquele pretinho?
_ Não venha me dizer que sou racista! Só falo assim por força do hábito. E que diferença faz dizer preto, negada ou afro descente? No Brasil isso de racismo nem existe. Somos um povo que sabe viver. E aqui cada um conhece o seu lugar. Assim não temos problemas desnecessários. 
Não é essa ainda a fala de tanta gente no Brasil? 
"O negro conhece o seu lugar". 
Negro pobre ninguém estranha. É o rumo natural das coisas. Mas, quando aparece um negro bem vestido e cheio da grana muita gente ainda olha de cara torta e pergunta aos seus botões se o cidadão não fez coisa ilícita para ali chegar. 
Do mesmo modo que não aceita-se com naturalidade um negro namorando uma branca e vice versa. 
_ Será que ela não sabe que conseguia coisa melhor? 
_ Somos todos iguais, mas não me venha casar com negro. Ter amigos negros é uma coisa, mas aparecer-me com netos mulatinhos, isso não. 
Quantos de nós, brasileiros, apesar da pele em tons marrons e da árvore genealógica habitada por negros, negras, índios e índias, preferem acreditar na mentira de que são brancos? 
Quantos de nós cresceu e ainda cresce ouvindo piadas racistas sem nunca terem-nas questionado? 

Infelizmente o racismo ainda está entre nós. Acomodado entre as piadas que ouvimos e repetimos desde pequenos. Sem nem sequer pensar sobre elas. Intrincado nas expressões cotidianas que saem da boca da mãe sem que ela dê por isso. "Vai ter que passar essa lição a limpo, menino, isso tá parecendo serviço de preto". 
A vó que dá conselhos amorosos e não esquece de acrescentar. 
_ O que importa é que encontre um marido bom. Só não vá arrumar um marido preto, hein. Não que eu tenha nada contra. Eu quero é que eles vivam bem lá no canto deles, mas, sem se misturarem com a gente. 
Os gritos nos estádios de futebol: "macaco!". 
E quase toda a gente que faz questão de esquecer o sangue negro ou indígena que corre-lhe nas veias. O bisavô negro esquecido, a avó indígena virou católica, e é só disso que se lembra. Melhor é agarrar-se a qualquer pontinha de descendência europeia que lhe corra pelas veias, para provar-se superior. 
Ah, mas na hora das cotas para negros em universidades públicas há muito descendente de italiano, português e espanhol tirando do caixão o bisavô negro. 
E você é racista? Pense bem. Admitir o seu racismo pode ser o primeiro passo para vencê-lo. 




_ Estava no ponto de ônibus sozinha. Era noite. Vi um homem  negro se aproximando. Pensei: 'vou ser assaltada!'. Ele ia passando direto quando reparou em mim. De certo percebeu a minha cara de susto e parou para perguntar se eu estava bem, se precisava de alguma coisa. Fiquei com vergonha de mim e do meu racismo. 

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