terça-feira, 2 de junho de 2020

Quando encontrei 'I love Dick'

Encontrei o livro "I love Dick" de Chris Kraus em uma galeria de Bergen, faz dois anos ou talvez um pouco mais. Acho que foi em uma das situações que já experienciei um punhado de vezes. Eu estava ali pra participar de uma atividade gratuita. Acho que era um workshop sobre organizações feministas que se distanciassem do modo de funcionar liberal. Senti-me na obrigação de contribuir com o espaço cultural de alguma forma. Por isso comprei o livro. O nome chamou a minha atenção. Mais tarde em casa, quando comecei a ler o livro não pude continuar. Não era a minha hora de conhecer essa história ainda.
I love Dick ficou esquecido na estante até semana passada, quando reencontrei-o.
O eu que reencontrou I love Dick é outro. Já não é aquela que só sabia e podia ser mãe.
Dessa vez, há também pedaços daquela que fui antes da maternidade. Dessa vez quando abri o livro lembrei de mim, tive vergonha de mim e da Chris
a obsessão dela por um amor inventado
deliberadamente inventado
lembrei de mim entre dois possíveis amores inventados
a necessidade louca de inventar alguém pra amar, como questão de sobrevivência

as reflexões de Kraus sobre ser mulher e artista,
os obstáculos apresentados
a arte da mulher só é aceita se expõe as vulnerabilidades da mulher enquanto mulher, de uma forma crua e nua

é isso que eu estou tentando fazer agora
expor as minhas vulnerabilidades num frame artístico?
pedaços de mim
thus pedaços de arte?
naaaah
pedaços
a vergonha de existir assim, pela metade
artista de mentirinha
a menina ingênua presa nesse corpo velho, cansado
os sonhos meio adormecidos
que ainda insistem em dar as caras
riem como hienas na minha cara
nos dias em que eu me permito acreditar que eles ainda se materializarão

o eu que um dia teve as curvas e as cores que fazem com que outros te olhem com desejo sumiu
morreu
foi engolido pela maternidade seguida de uma dose extrema de descaso por mim mesma
envelheci
engordei
entristeci
meu corpo aumentou, mas eu diminui

era pra ter crescido
ter achado espaço pra mim
espaço prum eu que não é coisa
mas mais do que isso
mais do que pedaço de carne pra ser comido, desejado, fodido

sem o sex appeal sou eu menos mulher?
ou outro tipo de mulher?
mulher numa outra fase?

participei de um workshop de escrita ano passado
em que insistiam que as palavras devem ser ditas sem agressividade
Foda-se!

como falar sem agressividade dessa hora louca?
a maternidade, minha
hora louca, onde o desespero e a alegria se entrelaçam sem pudores (ao menos foi assim pra mim).
a maternidade meteu-se em mim e na minha vida com uma intensidade doída. Havia dias em que eu chorava por não saber mais quem eu era, além de mãe. Noutros dançava de alegria por ter a chance de conhecer o amor desse jeito bruto, avassalador, inteiro e assustador

encontrei I love dick de Kraus numa hora em que começo a me lembrar que eu também posso ama-lo
eu também posso amar, desejar
essa massa mórbida
a mulher de meia idade que me habita
não é tudo o que sou

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