sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Sartre por ele mesmo


O documentário 'Sartre por ele mesmo' não é simplesmente Sartre apresentando a si mesmo. É antes de mais uma longa conversa de Sartre consigo mesmo e  com os seus fantasmas.
Sartre lembra e fala, sente e fala, pensa e fala, algumas vezes. Divide mais memórias e sensações do que qualquer outra coisa. Nesse documentário Sartre fala da sua infância, da sua escrita, da sua filosofia e das suas ações. Mais ou menos nessa ordem.
Sartre reclama das vezes em que foi mal entendido. Explica e esconde. E quando se esconde se mostra. 
Fala de rupturas: a ruptura com sua mãe, que casou-se pela segunda vez, a ruptura com seu avô, que passou a tratá-lo como um potencial ladrãozinho depois que Sartre de fato cometeu um furto, a ruptura com uma imagem de si mesmo, uma imagem angelical, bonita. Ele conta que depois que cortaram-lhe os cachos, ele percebeu, pela primeira vez, que era feio. A feiura caminhou ao lado de Sartre pelo resto de sua vida. Foi uma importante companheira na hora dele perceber o mundo. 
Nesse documentário Sartre fala abertamente sobre si mesmo. Apresenta o homem, o escritor, o ativista, o político, o filósofo. Papéis que muitas vezes se misturam.


Quando Sartre reflete sobre a liberdade, por exemplo, volta a sua própria história e explica como percebeu que a família pode desempenhar um papel importante na ilusão de liberdade. Ele diz: 
"(...) eu penso que a gente se sente livre quando é criado numa família sem conflitos, quando é amado pela mãe, quando é tratado pela família como um ser indispensável. Quer dizer, a família o trata de uma maneira que você se sente indispensável, como se sua presença fosse um presente. De fato, confundi liberdade e generosidade por muito tempo". 
Ao retornar a sua infância ele também encontra a violência, que segundo ele foi lugar comum para a sua geração, já que era um produto da Segunda Guerra e da Revolução Russa que invadia os dias da cidade.
Mais tarde, enquanto pensador e ativista ele irá se perguntar se a violência pode gerar uma moral. Para Sartre a violência e a política as vezes tem que ocupar o mesmo quarto.
Sartre assume que a filosofia não foi algo fácil em sua vida. Ele disse que ele sempre levou bastante tempo para entender os filósofos que estudou. Além disso, ele apresenta a si mesmo como alguém que foi primeiro um escritor e só depois se transformou num filósofo.
Enquanto filósofo ele propôs-se a 'fazer' uma filosofia que não era nem idealista, nem materialista, mas sim 'realista'. O que ele admite que não era um projeto totalmente novo, uma vez que o filósofo alemão Husserl, com o qual Sartre estudou, também tinha se ocupado dessa mesma filosofia 'realista'. 
Na minha opinião uma das melhores frases do documentário é uma das frases em que Sartre fala do espaço que a leitura teve na sua vida desde que era pequeno. Ele diz assim: "quando criança estava sempre lendo para me livrar do tédio. esse tédio, mais tarde, chamei de existência". 


O documentário pode ser assistido em: http://filosofiaemvideo.com.br/documentario-jean-paul-sartre-sartre-por-ele-mesmo-sartre-par-lui-meme-1976-legendas-em-portugues/

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